Tragédia constante e círculo vicioso: o feminicídio de Cláudia Nascimento
Nos últimos dias, mais um feminicídio chocou o Distrito Federal. O assassinato de Cláudia da Silva Nascimento se deu na sexta-feira (15), na chácara onde morava o casal, localizada em São Sebastião. Antes, ambos estavam em um estabelecimento na Vila Planalto e saíram do local por volta das 23h, enquanto batiam boca. Voltaram para casa e a mulher entrou primeiro no imóvel. Logo depois, Josimar se aproximou da casa, armado. Ela faria aniversário no dia 23, quando completaria 51 anos, e iria passar um período em Caldas Novas com uma amiga.
A família, então, adiantou as celebrações para o sábado (16), mas não conseguiu contato com Cláudia nas primeiras horas da manhã. Josimar e a vítima moravam num imóvel que não era deles, mas de um familiar, no condomínio Mansões Parque Brasília. Este parente é também o dono do restaurante onde eles estavam, mas não quis gravar entrevistas. Ele pediu ao filho que checasse nas câmeras do local se algo havia acontecido. O jovem verificou que os dois chegaram em casa e acompanhou a sequência de movimentos. Pouco depois, ouviu estampidos “muito parecidos com tiros” pela captura de áudio dos equipamentos.
Preocupado, relatou ao pai o que vira – e também o que não vira, pois nenhum dos dois apareceu mais nas gravações. O tio de Cláudia chegou ao local e foi obrigado a arrombar a porta, o que confirmou a suspeita do filho de que Josimar teria trancado o imóvel. Ao entrar, deparou-se com os dois corpos estendidos, estando o do homem ladeado pela arma usada no feminicídio. De acordo com o laudo do Instituto Médico-Legal (IML), ela foi morta com dois tiros. O assassino demorou cerca de uma hora para tirar a própria vida com um tiro na cabeça, sentado no sofá.

Como se pode imaginar, não era um relacionamento saudável. “Conturbado”, resume Stephannie Pessoa, sobrinha de Cláudia. “Ele era obsessivo e violento”, comenta a mulher, que diz já ter presenciado cenas de violência perpetradas por ele. “Eu o conheço há 11 anos, sempre foi assim; ele não se importava de tratá-la agressivamente na minha frente ou num círculo de amizades”, relata. E os problemas aumentavam. Josimar chegou à reserva remunerada da PMDF com rendimentos líquidos de R$ 20,5 mil, mas o salário de duplo dígito não pingava por inteiro na conta bancária.
“Ele tinha tanto [empréstimo] consignado que bateu no teto, não podia mais pegar, mas ele também tinha dívidas com agiotas”, lembra Roberta. Outros relatos indicam que também fazia uso abusivo de álcool, em episódios que invariavelmente terminavam em brigas, desde as verbais às de vias de fato. No restaurante em que estavam horas antes do crime, que é de um outro familiar da mulher, foi justamente o abuso da bebida que incomodou Cláudia, ao que o homem respondeu agressivamente.
Tragédia anunciada
O comprometimento do salário fazia com que a casa fosse basicamente bancada pela pensão que Cláudia recebia do Corpo de Bombeiros Militar (CBM-DF), onde o pai se aposentou. De acordo com familiares que não quiseram se identificar, esse era mais um dos motivos pelos quais Josimar recrudescia nas violências, tanto físicas, quanto psicológicas. O relacionamento começou há cerca de 12 anos, mais ou menos o tempo que Cleber Vilela se afastou da prima. “[Era] uma pessoa muito espontânea, muito sorridente, muito brincalhona. E ela foi perdendo isso já no primeiro momento”, conta.
“Minha irmã caçula, que é a mais próxima da Cláudia, chegou em casa várias vezes bem alterada, chorando, falando do tratamento dele com ela”, completa Vilela, que afirma que Josimar “ameaçou a minha irmã também”. Ele lembra, ainda, que Josimar frequentemente andava armado e fazia questão de demonstrar isso. “Ele deixava à mostra, indicava o volume na cintura. E agia de forma intimidatória, era sempre sisudo, cara de brabo o tempo todo”, comenta. “Não fazia questão de falar com ninguém da família; ninguém importava para ele”, completa Cleber. A irmã dele não quis gravar entrevistas.
Em mais de uma ocasião, o Jornal de Brasília tentou contato oficial com a PMDF. A corporação foi questionada sobre o controle que exerce sobre agentes, os materiais de conscientização contra a violência doméstica que disponibiliza à tropa; sobre prevenção a abuso de álcool e outras drogas por parte dos policiais; e se de fato Josimar respondia a processo administrativo que o impedia de andar armado, como alegam familiares e colegas. Infelizmente, não houve retorno até a publicação deste texto. O espaço segue aberto e as respostas, caso cheguem, serão adicionadas à reportagem.
523 processos por violência doméstica foram abertos contra PMs entre 2020 e 2026
Josimar Vieira da Costa, de 56 anos, passou à reserva remunerada em setembro de 2024, mas voltou à corporação em 2025 como integrante da Seção de Contra Auditoria (SCA) do Departamento de Saúde e Assistência ao Pessoal (DSAP), cargo obtido via concurso público simplificado para Prestação de Tarefa por Tempo Certo (PTTC), uma forma de recompor quadros quando há defasagem de pessoal para determinados cargos da instituição. Entre a “aposentadoria” – militares não se aposentam, daí o termo “reserva remunerada” – e a nova função, percebeu rendimentos líquidos de R$ 16,4 mil a partir de outubro. Em novembro, chegou a receber R$ 35,1 mil, de acordo com o Portal da Transparência.
O feminicídio cometido por ele é apenas mais um dos casos de violência contra a mulher cometidos por agentes da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF). De acordo com resposta da própria corporação a pedido via Lei de Acesso à Informação (LAI) do Jornal de Brasília, foram localizados 523 policiais alvo de procedimentos administrativos relacionados à violência doméstica entre 2020 e fevereiro de 2026. Destes casos, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) encaminhou 68 notificações, enquanto a Polícia Civil (PCDF) enviou 61 notificações.
A reportagem pediu o recorte baseado em ações abertas no bojo da Lei Maria da Penha. O número de procedimentos contra agentes da corporação é superior a 5% do efetivo total da PM, que, até fevereiro, era cotado em 10.476 policiais. Como é comum nos casos de feminicídio, o ciclo de agressões que culminou no assassinato começou muito antes dos disparos que ceifaram sua vida, mas Josimar não estava na estatística enviada pela PMDF: Cláudia não chegou a denunciá-lo.
Titular da 1ª Promotoria de Justiça Militar do Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT), Antônio Suxberger enxerga motivos mais nobres pelo alto número de procedimentos contra agentes militares. “O ponto de destaque é que a PMDF tem se preocupado em atuar em casos de ambiência doméstica, um movimento que é importante que se faça”, pontua. “Comparada às outras polícias militares do Brasil, a PMDF é elogiável”, conclui. Conforme o promotor, o controle externo do MPDFT e uma boa vontade da corporação militar contribuem para que haja controle, transparência e combate a atitudes agressivas contra mulheres por parte da tropa.
Advogada e presidente da ONG Laço Branco, voltado à prevenção contra a violência doméstica, Patrícia Zapponi quase conseguiu ajudar Cláudia. “Ela chegou a vir presencialmente e quis saber quais direitos teria”, comenta Zapponi. A visita se deu na quarta-feira (13), dois dias antes da discussão que terminou com o assassinato de Cláudia, que perdeu o ímpeto ao pensar nas consequências para Josimar, seu assassino. “Quando ela esteve aqui, era para termos ido à Deam [delegacia especializada de atendimento à mulher], mas ela desistiu na hora da saída, questionou o que acarretaria na vida profissional dele. Quis esperar mais um pouco”, lamenta a defensora.
Círculo vicioso
A própria família da vítima relata que o casal vivia em um relacionamento abusivo. Josimar é retratado como um homem ciumento, que se incomodava com simples interações de Cláudia com outros homens – ou mesmo com outras mulheres e até com familiares. Cleber, já mencionado nesta reportagem, conta que a última foto que tirou junto da prima retrata a dinâmica do relacionamento. “Eu cheguei num bar em Taguatinga e eles [o casal] estavam lá. Acenei para ela, mas ela não respondeu”, relata. “Depois, ela chegou na minha mesa e disse que tinha falado para ele que iria ao banheiro, mas veio falar comigo. Tiramos uma foto; é nossa última foto juntos”, lamenta.

Os relatos de Cleber são complementados pelo de Cláudio Nascimento, irmão da vítima. Ao JBr., Cláudio contou que conheceu Josimar antes mesmo de ele namorar com Cláudia. “Em 2008, a filha dele desceu gritando, pedindo ajuda”, diz Cláudio, que morava na mesma vizinhança, em Ceilândia. “Eu subi e tentei apaziguar. A ex-mulher estava trancada no banheiro, ele armado, gritando”, conta. “Seis ou sete anos” depois, ainda conforme o homem, ele o encontrou novamente, desta vez de mãos dadas com sua irmã. “Reconheci de cara, mas fiquei tranquilo. Perguntei como estava essa questão, disse que estava resolvido depois que se separou da primeira esposa”, relembra.
No momento em que se matou, Josimar tinha medidas alternativas de cumprimento de pena em execução, mas o processo corre em segredo de justiça e a reportagem não conseguiu acesso ao material. Não se sabe, portanto, se a condenação é originada nas brigas com a primeira companheira. Mais dois anos, por volta de 2018, e o casal se separou depois de muitas brigas e, de acordo com vizinhos, agressões físicas. “Eu falei dos boatos que me passaram e perguntei o que estava acontecendo. Ele negou, mas reagiu mal, ficou com raiva. Eu percebi que estava mentindo”, continua Cláudio. “Minha irmã brigou comigo, disse que não era para me meter na vida dela”, lamenta.
A partir dali, rompeu relações com os dois, e só voltou a ver Josimar em 2021. “Perguntei de novo se ele bateu na minha irmã e a gente já começou a brigar. Estava tão bêbado que deixou a arma cair”, pontua. Na terceira, poucas palavras foram trocadas. “Eu fui para cima. Eles [Josimar e Cláudia] separavam, ele pedia desculpas e ela voltava. Achava que podia ajudá-lo. Nessa época todo mundo tinha certeza das agressões”, finaliza.
Números e estatísticas
O assassinato de Cláudia se encaixa em diversas maiorias nas estatísticas de feminicídio do Distrito Federal. De acordo com o portal de monitoramento, da Secretaria de Segurança Pública (SSP), foram confirmados 242 feminicídios no DF entre 2015, ano de sanção da lei que tipifica o crime no Código Penal, e março de 2023, data da última atualização. Em 70% dos casos, a vítima não havia registrado denúncia contra o agressor; 61,2% delas já haviam sofrido violência antes do feminicídio, assim como Cláudia. Josimar, por outro lado, junta-se 13,8% dos autores que cometeram suicídio após perpetrar o crime e aos 19,2% que empregaram arma de fogo no assassinato.
Ela também se enquadra na conta de 80,6% que eram mães. As consequências das denúncias para os agressores, para a família ou mesmo para as aparências são grande empecilho na hora das denúncias, conforme conta Zapponi. “As mulheres têm que se conscientizar que, apesar do relacionamento, os homens podem causar mal mesmo. Muitas voltam atrás achando que vai haver uma mudança, pensam que vai afetar a família; isso é um problema cultural e educacional”, vaticina. “Em Brasília, estamos numa cidade com amplos equipamentos para dar essa proteção à mulher”, finaliza.
Denuncie
O Distrito Federal conta com sistemas de denúncia para mulheres em situação de violência ou vulnerabilidade. Se você é uma vítima e busca ajuda de autoridades, pode ligar nos números 190 (Polícia Militar) e 197 (Polícia Civil). Também é possível procurar ajuda nas Delegacias de Atendimento à Mulher (DEAM), localizadas na Asa Sul e em Ceilândia Centro. A Secretaria de Justiça (Sejus) toca o programa Direito Delas, que fornece atendimento psicossocial e jurídico a mulheres vítimas de violência, e a Secretaria de Segurança Pública oferta o Serviço de Proteção à Mulher, que facilita o acesso das denunciantes a medidas protetivas. Além disso, o número 180, linha rápida do Ministério da Justiça, recebe denúncias do país inteiro.