Menos passageiros no metrô, mais carros nas ruas: especialistas alertam para risco de colapso na mobilidade do DF

Em meio a denúncias sobre a falta de estrutura no Metrô-DF, a Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana (CTMU) da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) realizou, em maio, uma vistoria técnica no pátio de manutenção da companhia, em Águas Claras. A fiscalização revelou um cenário de abandono que, segundo os parlamentares, ameaça a continuidade do serviço utilizado por cerca de 140 mil passageiros diariamente.

O alerta ocorre em um momento de mudança no comportamento dos usuários do transporte público. Dados do próprio Metrô-DF mostram que Brasília perdeu mais de 1,3 milhão de passageiros entre 2023 e 2025. No mesmo período, o Distrito Federal ganhou mais de 73 mil motoristas nas ruas e registrou aumento na demanda do sistema de ônibus.

Segundo informações do Metrô-DF, o número de passageiros transportados caiu de 42,8 milhões em 2023 para 41,5 milhões em 2025. Já a Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob-DF) contabilizou 307.708.531 passageiros nos ônibus públicos em 2023. Em 2025, o número saltou para 347.371.823, um crescimento de 12,88%.

Superlotação afasta passageiros

Para quem dependia diariamente dos trilhos, a mudança de hábito veio após anos de desgaste. A estudante Fernanda Brigato, de 21 anos, utilizou o metrô entre 2023 e 2025 no trajeto entre Samambaia Sul e a Estação Central, quando trabalhava na Esplanada. Segundo ela, a rotina se tornou cada vez mais difícil.

“Chegou um ponto em que sair da Estação Central às 18h era insustentável. Já na plataforma aconteciam empurrões e brigas para conseguir entrar. Tinha dias em que uma viagem de uma hora virava duas horas e meia em pé, com muito calor. Presenciei pessoas passando mal e desmaiando por causa da superlotação”, relata.

Fernanda também conta que sofreu um acidente na Estação Samambaia Sul durante um período de chuvas em 2024. “A plataforma estava muito escorregadia. Caí na escada rolante molhada, tive cortes nas costas e fiquei com cicatrizes até hoje. Nenhum funcionário me ajudou”, afirma.

Atualmente, ela utiliza ônibus para se deslocar e diz que encontrou mais previsibilidade no trajeto, além de maior conforto.

Carro vira alternativa

A estudante Ana Luíza Vieira de Carvalho, de 20 anos, também abandonou o metrô após três anos utilizando o trajeto entre Ceilândia e a região central de Brasília.

“O metrô sempre estava lotado, atrasava, quebrava e eu acabava chegando atrasada na faculdade e no trabalho. Já presenciei várias brigas dentro dos vagões por causa da superlotação. Quando tive condições de comprar um carro, mudei imediatamente. O custo é maior, mas o desgaste mental é muito menor”, conta.

Apesar de gastar mais com combustível e enfrentar congestionamentos, ela considera que a mudança valeu a pena. “Às vezes o tempo gasto é praticamente o mesmo por causa do trânsito, mas o desgaste mental é o que mais pesa. Por isso priorizo o carro, mesmo ficando mais caro no fim do mês. O trem não compensa esse desgaste”, afirma.

Dados do Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF) mostram que, no mesmo período analisado, o número de motoristas passou de 1.729.447 para 1.802.573, alta de 4,22%.

Falta de investimento agrava cenário

Para o pesquisador de mobilidade urbana da Universidade Católica de Brasília, Artur Morais, a redução de passageiros está diretamente ligada à falta de investimentos no transporte público ao longo dos últimos anos.

“O metrô tem praticamente a mesma estrutura há mais de uma década e circula com praticamente a mesma quantidade de trens há mais de 15 anos. Enquanto isso, os investimentos foram direcionados para o sistema viário voltado aos carros. Se a pessoa encontra mais facilidade para dirigir, ela naturalmente deixa de usar o transporte coletivo”, explica.

Segundo ele, a combinação entre aumento da renda, facilidade de aquisição de veículos e ausência de expansão do transporte sobre trilhos contribui para o cenário atual. “Qualquer projeto de expansão que começarmos hoje já está atrasado há mais de dez anos. Falta planejamento de longo prazo. Sem investimento em metrô, corredores exclusivos e integração eficiente, o sistema nunca será competitivo”, avalia.

Crescimento da frota preocupa especialistas

O especialista em trânsito David Duarte alerta que a perda de passageiros não está relacionada apenas à quantidade de veículos disponíveis, mas à qualidade do serviço oferecido.

“O transporte público precisa oferecer conforto, pontualidade, acessibilidade e rapidez. Hoje, muitas pessoas só utilizam o sistema porque não têm outra opção. Quem consegue comprar um carro ou uma moto acaba migrando para o transporte individual”, afirma.

Para ele, a consequência é um ciclo que agrava os problemas urbanos. “Mais carros significam mais congestionamentos, mais poluição, mais acidentes e mais gastos públicos com saúde e infraestrutura. O governo economiza de um lado por não investir adequadamente no transporte coletivo, mas paga muito mais depois com os impactos gerados”, destaca.

Duarte defende um planejamento integrado para os próximos 20 anos, envolvendo metrô, VLT, ônibus e outros modais. “A solução para o transporte de grandes massas é um transporte público de qualidade. Se nada for feito, o que já está ruim tende a colapsar”, conclui.

Frota reduzida e planos de expansão

A situação do sistema também chamou a atenção da Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana da Câmara Legislativa do Distrito Federal, que apontou risco de redução da frota e necessidade de investimentos para evitar o agravamento dos problemas operacionais.

Atualmente, dos 32 trens da companhia, apenas 24 estavam em operação. Em resposta, o Metrô-DF informou que uma força-tarefa recuperou dois dos trens que estavam parados e que outros dois estão em fase final de testes.

A companhia afirma ainda que estuda a aquisição de 15 novos trens para reforçar a frota e modernizar os sistemas operacionais. Também estão em andamento as obras de expansão para Samambaia e o processo licitatório para ampliação da linha em Ceilândia.

Segundo o Metrô-DF, a expansão em Samambaia acrescentará cerca de 3,6 quilômetros de trilhos e duas novas estações. Já em Ceilândia, a previsão é de mais 2,3 quilômetros de extensão e duas novas paradas, beneficiando aproximadamente 12 mil pessoas. A expectativa é atrair entre 12 mil e 15 mil novos passageiros diariamente.

Mesmo diante das críticas, a companhia afirma manter índice de disponibilidade operacional de 98,87% em 2026 e ressalta que a média diária de passageiros em dias úteis permanece em torno de 148 mil usuários.

Deixe comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos necessários são marcados com *.