“Vou governar essa cidade”, afirma o ex-presidente da CLDF Joe Valle
O ex-presidente da Câmara Legislativa e pré-candidato a deputado distrital Joe Valle (PDT) e o convidado desta edição do JBr Entrevista. Em conversa com a nossa bancada, o ex-chefe do Legislativo local falou sobre sua experiência com o mercado de alimentos orgânicos, sobre sua saída e volta à política eleitoral – já que nunca deixou de atuar nos bastidores – e o seu desejo de ser governador do Distrito Federal.
O senhor é um dos pioneiros na produção de alimentos orgânicos no DF. Como se deu essa mudança?
Sempre quis produzir comida. Há mais de 40 anos, bem novo, comecei em uma chácara no Distrito Federal. Mas enfrentei três problemas: primeiro, eu me intoxiquei com o que chamam de “defensivo”, mas que é veneno mesmo. Depois, quebrei financeiramente, porque a cadeia de venda é complexa e o produtor não está preparado para ela. O estalo final veio num domingo. Ia levar um repolho para a minha mãe, mas lembrei do que tinha jogado nele e pensei: “Gosto muito da minha mãe, não vou levar isso”. Aí caiu a ficha: “Se não serve para ela, como posso vender para os outros?”. Frustrado por produzir comida intoxicada, falido e sem poder alimentar minha própria mãe com o que plantava, decidi parar.
E como se deu a mudança para o orgânico?
Tive a sorte de estar na Universidade de Brasília (UnB) durante a efervescência da redemocratização. Encontrei professores e estudantes pesquisando alternativas. Entrei de cabeça e a paixão voltou. Vimos, cientificamente, que era possível. Como eu precisava viver disso, buscava a sustentabilidade prática — que une o social, o ambiental e o econômico. Fomos forjados trabalhando, estudando e visitando experiências brasileiras viáveis. Tivemos grandes mestres que nos guiaram e trouxeram apoio. Construímos tudo juntando pessoas, pois nessa caminhada ninguém faz nada sozinho.
E qual foi o próximo passo para viabilizar isso?
Montamos a Associação do Mercado Ecológico em Brasília, que já tem mais de 30 anos. Fui feirante e verdureiro orgulhoso por 15 anos; amo pessoas, só não gostava de montar e desmontar a banca. Defendo que deveríamos ter uma Secretaria ou Ministério da Alimentação, pois a comida é a base da saúde e gera sustentabilidade em todas as áreas.
Também idealizei o projeto “Uma horta em cada escola e uma escola em cada horta”, que ainda aplico na Malunga. A horta é pedagógica: afasta as crianças dos ultraprocessados e da obesidade infantil, criando relação com a comida de verdade. Falamos de um mundo orgânico sem utopia, embasado pela ciência.
Qual o papel da Malunga nesse processo?
A Malunga desenvolve pesquisas fantásticas com as Embrapas para melhorar a qualidade de vida, sob o lema: “Alimento orgânico, felicidade para todo mundo”. Com o tempo, vi que a política deve ser ferramenta de melhoria social. Pratiquei isso por oito anos como deputado distrital, implementando projetos importantes. Saí da Câmara para retornar ao meu porto seguro: minha família e a Fazenda Malunga. Um reflexo desse avanço político e científico é que hoje o Brasil já passa de 70 milhões de hectares cultivados com bioinsumos.
O que são bioinsumos?
É o uso de microrganismos, pó de rocha e insumos brandos para obter produtividade agrícola com base científica e pesquisas. Nós temos laboratório próprio, aplicamos e disseminamos essa prática.
Como o senhor vê a política do bem-estar?
O mundo inteiro busca o wellness (bem-estar), que virou o grande mote de consumo, impulsionado até pelo fenômeno das canetas emagrecedoras. O orgânico nasce dessa vertente: respeita a natureza e prioriza o alimento saudável. Atualmente, inclusive, tenho participado ativamente da reorganização do mundo orgânico dentro da legislação brasileira.
O orgânico é um produto de importação? Como o senhor avalia a qualidade do que é produzido aqui?
Pelo contrário. Aqui perto, em Goiás, temos as duas maiores usinas de cana-de-açúcar orgânica do mundo (Jalles Machado e Goiasa). O açúcar orgânico brasileiro é o melhor do mundo e eu o utilizo nos doces e iogurtes da Malunga. Inclusive, estamos discutindo a reciprocidade de selos para que o selo orgânico brasileiro seja aceito no Mercosul e na União Europeia. Outra realidade atual é o projeto de um pão de queijo orgânico feito no DF para exportação.
Tudo isso é real, não promessa. Vou palestrar sobre essas tendências de wellness nos supermercados na maior feira de orgânicos da América Latina, em São Paulo. Em Brasília, já temos cinco lojas Malunga e estamos abrindo a sexta, sempre acompanhando o que a população busca para melhorar a saúde.
O preço dos orgânicos é acessível à população?
É acessível. Comer bem é questão de prioridade, pois dita sua saúde presente e futura; quem economiza na comida, gasta na farmácia. Olhando a cesta básica, é viável. É aí que entra a política pública: ela deve incentivar o produtor que tem produtividade menor pagando um preço justo (sobrepreço) e distribuir esses alimentos para quem não pode pagar.
Fizemos isso em Brasília por meio de leis como a da alimentação escolar, o PAPA (Programa de Aquisição de Produtos da Agricultura) e a lei do banco de alimentos. Defendemos um mundo orgânico e acredito que em dois ou cinco anos esse será o padrão. Brasília é exemplo de que, por meio de políticas públicas e cooperativas de agricultura familiar, o orgânico já é acessível e chega aos cidadãos de baixa renda.
O senhor está de volta à política eleitoral? O que o traz de volta às urnas?
Primeiro, quando eu saí, eu presidia a Câmara e trabalhei muito, foi muito legal. Eu sou muito feliz pelo trabalho que fiz. Conheci a cidade de cabo a rabo. Tinha muita vontade de continuar e de governar essa cidade, depois de conhecer e fazer uma estratégia de hospitais, fazer programas estratégicos nas regiões administrativas. Tive a honra de ser secretário de uma secretaria maravilhosa, onde cresci muito, a de Desenvolvimento Social, que é o braço do Estado em que o cidadão consegue se amparar. Mas eu tive uma questão pessoal: minha família me procurou. Minhas duas meninas eram adolescentes, eu já estava há 13 anos mais afastado de casa e eu me dediquei demais à política. Eu sou apaixonado, mergulho fundo em tudo o que faço, e acabei deixando muito a desejar com elas e também com a empresa, com a Malunga. Naquele momento, a minha esposa estava sobrecarregada, muitas coisas acontecendo. A gente também tinha se decepcionado com um modelo de política que existia — e que existe ainda —, e a gente tomou a decisão, a um pedido dos meus filhos, de realmente sair naquele momento e não nos candidatarmos. Tomei aquela decisão difícil, mas que para mim, depois, mostrou-se muito acertada, porque eu refiz a minha vida. Minhas filhas estudaram, se aproximaram de mim, se formaram e estão hoje nas nossas empresas trabalhando e vendo todo o trabalho político que eu faço mesmo sem mandato, de forma não eleitoral — de me interessar, de estar sempre lutando, conversando com as pessoas, com gente indo lá conversar comigo.
E como foi a decisão de voltar?
Elas se reuniram comigo e falaram: “Pai, agora a gente tem uma estrutura em que você pode voltar para a sua vocação”. Então eu posso dizer claramente que é um chamado vocacional. E eu digo que a política para mim, saindo de onde estou para voltar, é a escolha certa. Eu vou fazer isso de verdade, quero fazer, é uma vontade que eu tenho. Sei fazer e estou me colocando à disposição. É claro que isso é um processo de grupo; você não faz nada sozinho, política não se faz sozinho. Então tem um grupo de pessoas que está comigo para que a gente faça esse retorno à política com toda a bagagem que a gente traz, para que a gente possa também voltar a ser até mais produtivo no Legislativo do que nós fomos. E eu sempre defendi — você já me ouviu falar isso no passado — que a política tem fila, mas a fila anda. Eu saí da fila lá na frente, mas, para eu voltar, estou voltando para a cabeça da fila.
O senhor já tem trabalhado alguns eixos. O senhor poderia resumir para a gente quais são?
Primeiro, eu sou ligado à sustentabilidade, sempre fui. O pessoal fala: “O Joe da Malunga, que mexe com verduras orgânicas”. O orgânico já traz essa ideia de um mundo sustentável. Mas a gente vai direcionar muito para a mudança da matriz energética aqui, para realmente criar, de forma definitiva, um processo de liberdade energética — que é um termo de um amigo meu, o Rogério Prieto, que eu achei muito interessante e tenho usado —, que é mudar o eixo para a energia solar mesmo aqui no DF, mas também os biocombustíveis. Brasília poderia ser uma cidade movida a etanol, biocombustível e eletricidade. Isso é bem tranquilo de fazer e daria o exemplo para o Brasil. A gente quer aprofundar, mergulhar fundo nesse processo, até para que Brasília vire um grande espaço de inteligência energética. Eu digo que o mandato vai ter quatro pilares. O segundo pilar é o de desenvolvimento econômico. A gente trabalhou muito para criar o polo agroindustrial de Brasília, que fica na DF-130. Quero dedicar uma parte do mandato a realmente regulamentar, regularizar e trazer as indústrias importantes para aquela região, inclusive indústrias de placas solares e essa cadeia toda. O polo agroindustrial está pronto.
Como o senhor imagina o cinturão da agroindústria?
Quero fazer um trabalho de reconhecimento de um projeto que a gente apresentou no passado, que é o Projeto Eixo Econômico-Social Brasília-Goiânia. O mercado integrado é uma coisa importantíssima para descobrimos isso há muito tempo. Achamos que, assim como Juscelino Kubitschek fez um grande projeto, o DF precisa ter um cinturão de agroindústrias, porque nós estamos no coração do agro brasileiro: Goiás, Minas Gerais, Distrito Federal. Todo esse processo aqui. Se você expandir um pouco o raio, nós vamos ter, talvez, a maior área irrigada do Planalto Central da América Latina produzindo alimentos, e a gente precisa transformar isso em um entorno forte, com energia e tudo o que precisa ser feito. O outro eixo é o que já temos. A gente tem esse DNA muito brizolista. Que é a parte da educação integral, criando os CIEMPs com a ideia do CIEMP 4.0, trazendo a sustentabilidade para dentro desse processo, usando as matérias ligadas à produção de alimentos e alimentação. A gente quer falar muito dessa questão da alimentação como sustentabilidade a partir da mesma. Nós precisamos de uma lei — você deve se lembrar de que, em 2014, já existia uma lei proibindo ultraprocessados na alimentação escolar. Fui criticado na época pelos produtores de embutidos e tal. Mas você viu que hoje é o que se fala, só que nós falávamos disto em 2013, 2014, quase dez anos atrás. Mas criamos aquela possibilidade de ter a tarifa zero em algumas linhas e a ideia é renovar isso dentro desse processo, tudo ligado à educação. Porque eu vi, nas mais de 100 hortas em que tenho trabalhado, a mudança dos meninos quando eles trabalham com a terra, quando plantamos em um espaço para colher e respeitar. Isso é uma coisa muito legal e o impacto é muito rápido como ação de saúde, que tem a ver com a alimentação também. Eu fiz planejamento estratégico em alguns hospitais com foco nisso. Criamos a lei e colocamos na Lei Orgânica a possibilidade de criar a destinação de emendas para os hospitais e escolas; isso muda a realidade. O pessoal, descobrindo essa vertente, vai poder mudar bastante a cara dos hospitais. O hospital é um processo importante e complexo, mas a promoção da saúde no Distrito Federal é ainda mais importante. Então, quando você integra os eixos, escolhe a saúde e cria parcerias com as universidades fortemente dentro do processo de geração e promoção de saúde para a população da periferia.
O senhor, quando presidente da CLDF, foi bem aprovado, tanto que seu nome foi ventilado para governador. Qual é o futuro do Joe Valle?
Eu vou me dedicar completamente ao serviço das pessoas. Eu quero governar essa cidade. Eu vou governar essa cidade e quero mostrar — farei isso com um grupo, com a formação de um grupo de pessoas — que Brasília precisa ser a ponta de lança do Brasil, porque o poder está aqui. Tudo o que se faz aqui reverbera e dá para fazer a diferença. Conheço bastante a realidade e quero fazer isso. Vou me dedicar a isso o resto da minha vida, como uma missão: a missão de tornar Brasília uma cidade sustentável.
O senhor também tem feito um trabalho contra as bets (apostas eletrônicas). O que o motiva a levar essa pauta à frente?
Nós estamos com um pedido, um apelo, quase um grito de ajuda: um projeto de lei de iniciativa popular para acabar com isso. Por causa dos meus jovens, vejo isso nos jovens funcionários, porque eu tenho muitos funcionários jovens. Há muitos viciados, indivíduos já buscando a saída no álcool e nas drogas; eu tive um jovem dos meus tentando suicídio. Essa é uma epidemia, uma ansiedade invisível, porque as pessoas não comentam, mas que acomete desde o mais pobre até o mais instruído. Eu estou sofrendo muito com isso junto a eles.
