Saberes ancestrais iluminam inspirações de empreendedores negros na capital do País

Redação Jornal de Brasília/Agência UniCeub
*Por Beatriz Vasconcelos e Giovanna Torres

Entre máquinas de costura e peças espalhados pelo ateliê na região administrativa do Guará, o artesão Igor Pereira, de 28 anos de idade, transforma referências da vida dele de periferia em bolsas, roupas e acessórios que unem moda, funcionalidade e identidade.

Ele foi criado apenas pela mãe, empregada doméstica. Nasceu e se criou em Samambaia (DF), a 30 quilômetros de Brasília. Ele tem na memória a luta da família ser sustentada com apenas um salário mínimo.

Na vida adulta, ele encontrou no empreendedorismo uma forma de reconstruir a própria vida após enfrentar um período de depressão associado à vulnerabilidade social.

“Tudo que eu aprendi foi com a minha mãe e com a rua. A rua pode te esmagar, mas pode trazer também muitas referências”, diz.

A história da marca começou de forma despretensiosa. Sem encontrar roupas do seu estilo não convencional, Igor começou a produzir camisetas para uso próprio estampadas com uma logo criada por ele, a “Piffi”.

Assista também a vídeo sobre o tema:

Ao publicar fotos nas redes sociais, amigos começaram a demonstrar interesse e encomendar peças e o que era apenas uma necessidade pessoal se transformou em negócio.

Igor então passou a criar bolsas e acessórios pensadas nas necessidades do cotidiano periférico. “As nossas necessidades vão se moldando durante o dia”, explica.

Ele decidiu transformar a realidade em inovação. Entre os produtos mais vendidos está uma bolsa “quatro em um”, que pode ser usada como pochete, mochila, colete ou bolsa transversal.

Pensadas para ambientes urbanos, as peças unem estilo, conforto e segurança. Foi com esse produto que Igor venceu a ExpoFavela Brasília em 2023, evento voltado ao empreendedorismo periférico.

A grife do povo

O  apelido “grife do povo” surgiu dos próprios clientes. Ao se reconhecerem usando as peças, consumidores passaram a associar a marca a um sentimento de pertencimento coletivo. 

A preocupação com acessibilidade faz parte do negócio. Um dos produtos mais recentes da Piffi são chaveiros feitos a partir de retalhos que sobram das produções de outras peças. Além de reduzir desperdícios, eles permitem que pessoas com menor poder aquisitivo também tenham acesso aos produtos da marca.

Dados do Serviço Brasileiro de Apoios às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) apontam que pretos e pardos já somam 15,8 milhões de donos de negócios no Brasil. Isso representa um crescimento de 17% nos últimos dez anos. Para Igor Pereira, a presença de empreendedores negros nesses espaços tem um papel que vai além da geração de renda.

“Muita gente inspirou meu trampo e o meu trampo também inspira muita gente”.

Para ele, dar visibilidade a negócios periféricos mostra que a “quebrada” produz estética, conceito e inovação. Embora muitas vezes as vivências da periferia sejam apropriadas por outros grupos, Igor destaca que a produção criativa sempre existiu nesses espaços.

“É uma validação que é só comercial. A periferia sempre está produzindo”, destacou.

Os planos para o futuro refletem esse compromisso coletivo. Um dos sonhos de Igor é criar um ateliê comunitário na periferia, onde moradores possam utilizar equipamentos de costura e produzir suas próprias peças sem os altos custos exigidos para iniciar nesse ramo. 

Ele também deseja que a empresa alcance mais espaços no mercado e fortaleça parcerias com outros artistas periféricos. Igor quer construir uma rede capaz de gerar oportunidades para quem compartilha dos mesmos desafios.

“Não é só sobre crescer sozinho. O meu sonho é criar estrutura para alcançar mais pessoas e trazer outros artistas junto nesse processo”, conta.

De mãe para filha

Enquanto alguns negócios surgem da inovação, outros passam de geração para geração. Foi esse o caminho da cabeleireira Kauana da Silva. Ela conseguiu expandir o empreendimento criado pela mãe e transformou a herança familiar em sustento.

Há cerca de 30 anos, a mãe, Iara da Silva, encontrou no saber ancestral, fazer tranças, em negócio para garantir a renda em casa. Para criar os filhos, fundou o salão “Beleza Afro”, localizado no Setor de Diversões Sul, no Conic, um shopping popular em Brasília.

O negócio sempre foi o sustento da família e, após a aposentadoria de Iara, passou a ser a fonte de renda da filha.

“Tudo que engloba hoje minha vida está literalmente associado ao salão”, afirma.

A relação com o empreendimento começou ainda na infância, acompanhando a mãe no trabalho. Primeiro, Kauana atuou como maquiadora. Depois, ela se tornou trancista e especialista em cabelos com curvaturas. Durante a pandemia, ela passou a ajudar no salão e se apaixonou pelo negócio da família. 

Kauana veio com novos olhares para o serviço. Enquanto a mãe representa e experiência e técnica acumulada ao longo dos anos, Kauana resolveu apostar em divulgação diante da concorrência crescente.  

Com dez anos de experiência na área, Kauana assumiu a gestão do espaço e hoje coordena uma equipe formada por seis profissionais, cada um com sua especialidade e técnica própria. O salão funciona de segunda a sábado.

Para ela, o crescimento de negócios especializados em cabelos crespos e cacheados é uma forma de fortalecimento da identidade negra e de criação de oportunidades econômicas.

“Hoje em dia é muito importante essa representatividade. Além de aprender a cuidar do nosso próprio cabelo, é uma oportunidade de negócio para pessoas negras. Podemos ensinar outras pessoas por onde começar e como transformar isso em uma fonte de renda.”

Bico voltado para trás

O professor Hector Vieira apostou na tecnologia para fortalecer o empreendorismo negro. “Eu senti que precisava fazer mais pelo povo negro”, diz.

Foi dessa inquietação que nasceu a Sankofa, um ambiente virtual (hub) criado para conectar empreendedores, prestadores de serviço e consumidores interessados em fortalecer negócios liderados por pessoas negras.  No site, há possibilidade de adesão a um plano gratuito.

“A sankofa funciona como uma rede social e cria um espaço para empreendedores e prestadores de serviços negros realizarem negócios”.

Ele explica que o nome Sankofa é inspirado em uma palavra que simboliza um pássaro com o bico voltado para trás com um ovo nas costas.

“Esse nome foi escolhido com a ideia de buscar no passado novidades para o futuro”.

Hector acredita que o combate contra o racismo precisa estar presente em todas as esferas e lugares da vida, principalmente na economia.

“A ideia da educação antirracista na perspectiva econômica é para buscar a riqueza do povo negro que foi sequestrado”, explica. 

Ao todo, mais de 150 empreendedores já participam do projeto e Hector destaca que todos engajados pela causa antirracista (não necessariamente negro) pode participar. 

O objetivo é criar oportunidades para que empreendedores negros ampliem sua presença no mercado e fortaleçam suas atividades. 

“Percebi a necessidade de criar projetos para que a população negra possa buscar aquilo que lhe foi sequestrado e negado e fazer esse resgate nessa perspectiva de prosperidade econômica para todos.”

*Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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