Vila do Pequenino Jesus, que completou 17 anos, acolhe 104 pessoas com deficiência e mobiliza voluntários; veja entrevista

Por Beatriz Vasconcelos

Vila do Pequenino Jesus, que completou 17 anos em Brasília no sábado (dia 15), celebra uma história de solidariedade traduzida no acolhimento de 104 pessoas com deficiência. A maioria delas não tem mais referências familiares. A instituição mantém uma estrutura voltada para cuidados de saúde, alimentação, assistência e qualidade de vida.

O coordenador-geral da instituição, Jorge Deister, explica que a iniciativa, nascida em 2009, começou no Rio de Janeiro, onde era voluntário em uma casa que atendia pessoas com deficiência. Na época, Jorge era marceneiro, tinha uma empresa com cerca de 30 funcionários e uma vida profissional estabelecida.

Localizada no Lago Sul, a instituição depende de parcerias e doações para custear grande parte das despesas. Segundo Jorge Deister, ou Jorginho, os gastos chegam a aproximadamente R$ 8 mil a R$ 10 mil por dia. Ele precisa de novos recursos para atender mais pessoas.

Um grupo de Brasília conheceu o trabalho realizado em Petrópolis e decidiu levar aquela experiência para a capital. Jorge aceitou o desafio. “Eu sempre tive muito essa vontade de doar a minha vida pelo próximo”, contou.

Depois de conhecer Brasília e o projeto, ele se encantou com a proposta. Jorge e a então namorada, Cássia, que é fisioterapeuta, se casaram e vieram para a capital para iniciar a Vila do Pequenino Jesus.

No começo, eram apenas cinco acolhidos. Com o tempo, a atuação se ampliou a partir das visitas que Jorge fazia aos hospitais de Brasília. Ele percebeu que havia uma demanda significativa de pessoas que permaneciam internadas por longos períodos sem condições de retornar para casa.

“Quando eu comecei a fazer visita aos hospitais de Brasília (…) a gente começou a ver que a gente não ia ficar limitado a cinco. A gente começou a crescer, crescer”, relatou.

Atualmente, são 104 acolhidos. Segundo Jorge, entre 2024 e 2025, 25 pessoas foram retiradas da situação de permanência hospitalar e passaram a morar na Vila, em uma parceria com o Governo do Distrito Federal (GDF).

A iniciativa, além de proporcionar melhores condições de vida aos pacientes, também contribui para liberar leitos hospitalares para outras pessoas.

Uma casa

A Vila atende pessoas que apresentam condições neurológicas e físicas e que, segundo avaliação da equipe clínica, necessitam de cuidados permanentes. A instituição procura individualizar o atendimento, levando em consideração as necessidades de cada acolhido.

“Por ser uma casa muito grande, a gente tenta assim, mesmo na medida do possível, individualizar o cuidado”, explicou Jorginho.

A estrutura conta com profissionais de diferentes áreas, como psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, técnicos de enfermagem, nutricionista, médico, dentista, coordenadores e administradores. Há também uma cozinha industrial e cuidadoras responsáveis pelo acompanhamento cotidiano.

Para Jorge, porém, o trabalho vai além da assistência. Muitos dos acolhidos perderam o vínculo com suas famílias.

“Os que a gente acolhe também, 90% não têm família, não têm referência familiar, foi rompido isso”, afirmou.

Por isso, a Vila procura reproduzir, dentro das possibilidades, o ambiente de uma casa. Alimentação, passeios e atividades são adaptados às necessidades individuais. Um dos projetos leva semanalmente grupos de cinco ou seis acolhidos a espaços públicos acessíveis, como shoppings.

A iniciativa também busca chamar a atenção da sociedade para a necessidade de acessibilidade. “Eu gosto muito disso hoje, levar eles ao shopping para ver (…) pra sociedade notar que as lojas têm que estar adaptadas”, disse.

Mutirão de fraldas reúne cerca de 300 voluntários

Entre as principais ações de solidariedade da Vila está o mutirão de fraldas, realizado mensalmente. A iniciativa surgiu de uma necessidade básica: a instituição utiliza cerca de 800 fraldas por dia.

A mobilização costuma reunir aproximadamente 300 voluntários, principalmente no segundo sábado de cada mês. O trabalho é simples e permite a participação de pessoas de diferentes idades.

“Isso é o início da dignidade. A gente tendo fralda para cuidar deles é importantíssimo pra gente”, destacou Jorge.

A fabricação própria surgiu depois de um período em que a instituição recebeu uma grande quantidade de doações, mas posteriormente viu os estoques diminuírem. Jorge conta que, durante os primeiros anos da Vila, um vídeo pedindo fraldas viralizou e provocou uma mobilização nacional e até internacional.

“Eu recebi ligações aproximadamente de 10 países diferentes. O Brasil todo se mobilizou”, lembrou.

A campanha chegou a gerar doações suficientes para cerca de três anos. Com a redução posterior das doações, surgiu a necessidade de encontrar uma solução permanente.

“Eu comecei a pensar, puxa vida, ficar comprando fralda pro resto da vida, eu não vou aguentar”, contou.

A Vila conseguiu então uma máquina para fabricação de fraldas e, após quase um ano de adaptações, colocou o equipamento em funcionamento. Com apoio da Fundação Banco do Brasil para a compra dos insumos, a instituição criou sua própria produção.

Hoje, um funcionário fabrica cerca de 400 fraldas por dia. Como a produção ainda não é suficiente para atender toda a demanda, o mutirão mensal continua sendo fundamental.

“E começamos a fabricar fralda. E hoje isso aí virou, graças a Deus, uma coisa importantíssima pra gente”, afirmou Jorge.

A dinâmica do mutirão é acessível: os voluntários ajudam principalmente na colocação das etiquetas e na dobra das fraldas. “Pode fazer fralda quem tem 4 anos e que tem 90”, brincou o coordenador.

Solidariedade também é presença

Para Jorge, o voluntariado não deve ser visto apenas como uma forma de doação de tempo ou trabalho. Ele acredita que a experiência de conhecer a Vila é fundamental para criar vínculos e compreender as necessidades dos acolhidos.

“O mais importante pro voluntário é ele ir na Vila, porque o voluntário tem que fazer aquilo que ele gosta para ele sentir vontade de voltar”, explicou.

Ele próprio aprendeu essa lição depois de pedir a um vizinho que limpasse um lago da instituição. O homem passou um dia inteiro realizando o serviço, mas nunca mais voltou.

“Eu fui entender o que o voluntário tem que fazer: não aquilo que eu quero, mas aquilo que ele gosta”, contou.

A manutenção da Vila, entretanto, depende de uma combinação de parcerias e doações. O GDF mantém um convênio que contribui com recursos humanos, enquanto outras despesas são custeadas por doações e pelo trabalho de mobilização da instituição.

“Tem que ter uma luta muito grande da nossa parte pra gente fazer a Vila acontecer e manter a dignidade daqueles que Deus nos confiou lá”, afirmou.

Sentido ao trabalho

Entre as histórias que marcaram Jorge está a de Márcio, que passou quatro anos internado em um hospital depois de ser baleado e permanecer um período em coma. Durante uma visita, a esposa de Jorge perguntou ao paciente o que ele mais precisava.

A resposta foi simples: “Eu queria uma família que me dê carinho e amor”.

A história terminou com a adoção de Márcio por Jorge e sua esposa. “Márcio mora com a gente hoje e ele nos faz rir demais”, contou.

É por histórias como essa que Jorge afirma se sentir privilegiado por viver próximo aos acolhidos.

“Eu me sinto assim um privilegiado, sabe, de eu poder acordar todo dia de manhã (…) e ver aquelas pessoas que eu conheço a história de todos eles”, disse.

Para ele, o trabalho também é uma forma de enfrentar o abandono e lembrar que a dignidade não deve depender da capacidade de uma pessoa produzir.

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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