Estudantes da rede pública do DF superam atraso escolar com resiliência e apoio

Apesar do Distrito Federal não ter atingido as metas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2025 estabelecidas pelo Ministério da Educação (MEC), de acordo com o Fundo Internacional de Emergência para a Infância das Nações Unidas (UNICEF), a capital tem reduzido um problema educacional grave: a distorção de idade-série, conhecida como atraso escolar.

O Ideb é o principal indicador da qualidade da educação no Brasil. Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, a meta para a rede pública distrital era de 6,5, e a nota alcançada foi 6,0. Já nos anos finais, a meta era de 5,3, e o DF registrou 4,7. No Ensino Médio, que soma as redes pública e privada, a meta colocada era de 5,4. O índice registrado ficou em 4,1, abaixo da média nacional. Por outro lado, segundo o UNICEF, em 2019 na capital 18,4% dos alunos do Ensino Fundamental e 28,6% do Ensino Médio estavam com atraso escolar. Em 2025, o percentual diminuiu, respectivamente, para 13,1% e 20,2%.

O Jornal de Brasília mostra que esse resultado é reflexo de um gigante esforço para que cada criança e adolescente esteja de fato na sala de aula aprendendo. Superação é a palavra que define o dia a dia de muitos estudantes no Centro de Ensino Fundamental (CEF) 308 em Santa Maria. Quem sabe muito bem disso é a professora Lindaurah Silveira, que há três anos tem acompanhado uma caminhada que rende frutos para os estudantes da escola. O Programa SuperAção, destinado para alunos com atraso escolar, demonstra como todo adolescente tem o potencial para superar as dificuldades e avançar na educação.

O projeto da Secretaria de Estado de Educação do DF (SEEDF) tem como objetivo a correção do fluxo escolar, e está vigente desde 2023. “A gente vê que às vezes os meninos e as meninas precisavam de um pequeno espaço, uma pequena oportunidade e um grande esforço por parte deles. Porque quando a gente fala do SuperAção, não conseguimos mensurar o quanto eles tiveram que se articular, se reinventar para poder passar e ser avançado”, explicou a professora, que iniciou o projeto na escola. O programa é destinado para estudantes do 3° ao 9° ano do Ensino Fundamental das escolas públicas da capital.

No CEF 308, descreveu Lindaurah, a história de vários alunos foi transformada por conta do projeto. Para Emili Pereira, 17, o impacto foi enorme no curto espaço de um ano. “Quando eu comecei [o SuperAção] eu tinha 16 anos e estava no 7° ano. Hoje eu tenho 17 e já estou no 9° ano. Foi muito importante porque me ajudou bastante, eu aprendi muitas coisas que não sabia. Os professores me ajudaram muito, tiveram paciência comigo e eu estou tendo várias oportunidades hoje por causa desse projeto”, contou.

Com as atividades desenvolvidas, Emili avançou 2 anos. O esforço também virou motivação para a aluna finalizar os estudos na educação básica. Com o avanço, Emili poderá ter a chance de avançar já para o 3° ano do ensino médio em 2027. “Eu ganhei a oportunidade de fazer a prova agora em agosto para terminar meus estudos. Espero que eu consiga passar para depois fazer uma faculdade boa”, completou a estudante.

Exemplos de superação

Orgulhosa, Lindaurah contou ao JBr como exemplos iguais ao de Emili têm se repetido na escola. “A gente tem tido respostas bem felizes, está aqui o exemplo. Tem um grupo de alunos nossos que hoje não estão aqui porque foram avançados para as escolas de Ensino Médio”, disse. Mas o SuperAção é algo que vai muito além de apenas avanços de séries na escola. Emanuela Silva, 15, relatou ao JBr que ela fez algo que julgava impossível. “Foi importante para mim porque eu consegui fazer uma coisa que para mim não era possível. Foi no SuperAção que eu aprendi a ler. Eu achava que não era possível por conta de alguns problemas que eu tenho”, contou a estudante.

img 3724.jpg
Da esquerda para a direita, as alunas Emili, Maria Eduarda, Maria Luiza e Emanuela tiveram êxito no SuperAção e conseguiram avançar nos estudos. Foto: Vítor Ventura/Jornal de Brasília

Emanuela, assim como Emili, avançou dois anos, saindo do 6° para o 8° ano do Ensino Fundamental. “Com 13 anos eu não sabia ler. Então foi importantíssimo para mim, porque eu era zoada por todo mundo, e esse problema não era falta de esforço meu. Quando eu consegui, também por causa da Lindaurah, foi uma das melhores coisas da minha vida”, comentou Emanuela. O programa também foi essencial para Maria Eduarda, de 15 anos. “Eu tinha vergonha de estar na série que eu estava. Com 14 anos eu estava no 6° ano. Hoje eu estou no 8° com muito estudo. O que eu mais gostei foi do esforço que eu fiz para conseguir isso e também de ter conhecido a professora Lindaurah”, relatou Maria Eduarda.

O papel da comunidade escolar

“Eles estavam do meu lado me ajudando e me mostraram que eu era capaz mesmo quando eu achei que não era”, disse Maria Luiza, 14, outra aluna do CEF 308 que conseguiu avançar séries através do SuperAção. Para a professora Lindaurah, o ciclo de apoio foi essencial para que essas estudantes pudessem superar o atraso escolar. De acordo com ela, é de extrema importância tratar esse problema não como uma questão individual dos estudantes, mas como algo que pode ser resolvido coletivamente.

“Quando a gente fala do êxito com essas meninas e com os outros em termos de cooperação, em termos de produção, é uma coisa bem entrelaçada. São elas e eles que abraçaram o projeto, assumiram a autonomia desse momento deles de mudança, aproveitando a oportunidade. São as famílias que nos apoiaram naquilo que era preciso. São os professores, que abraçaram o programa. É muito gostoso quando a gente vê isso”, ressaltou a professora.

img 3717.jpg
Professora do CEF 309, Lindaurah Silveira ajudou estudantes que sofriam com a distorção de idade-série. Foto: Vítor Ventura/Jornal de Brasília

Mesmo com o sucesso do programa, Lindaurah pontuou que ainda há desafios na superação do atraso escolar, sobretudo em escolas na periferia do DF como é o caso do CEF 308. “Conseguimos 100% de êxito? Não, infelizmente não. Eu acho que um dos momentos que a gente fica mais frustrado é quando não conseguimos, porque a gente vê ver que o aluno possui o potencial, mas ele não possui a rede de apoio. Muitos estudantes aqui são eles por eles mesmos em algumas situações. A gente tem famílias muito comprometidas, mas infelizmente não é a realidade de todos”, destacou.

Esses desafios, entretanto, estão na pauta todos os dias das escolas da rede pública do DF. No CEF 308, o projeto continua crescendo. Se nos dois primeiros anos foram cerca de 10 alunos participando, em 2026, como pontuou a atual professora articuladora do programa, a professora Alana Vieira, a expectativa é que muitos outros superem o atraso escolar. “Estamos com 60 alunos participando do programa, 36 na parte da manhã e 24 à tarde. São diversas séries, e a gente espera que todos possam dar esse salto nos estudos e avançar os anos”, contou.

Trajetória de Sucesso Escolar

É justamente para diminuir ainda mais a distorção de idade-série no DF que o UNICEF e a SEEDF uniram forças para dar o apoio necessário para que mais e mais estudantes possam alcançar o que foi teoricamente perdido. O SuperAção integra a estratégia “Trajetória de Sucesso Escolar”, desenvolvida pela secretaria em parceria com o UNICEF, que presta apoio técnico para prevenir a reprovação, o abandono escolar e a distorção idade-série, garantindo o direito de aprender e permanecer na escola.

Como parte das ações, a Escola de Formação Continuada dos Profissionais da Educação (Eape) ofertou a Trilha Formativa do Programa SuperAção ao longo do primeiro e segundo semestres, com carga horária de 180 horas, para qualificar professores no desenvolvimento de práticas pedagógicas voltadas a esses estudantes em situação de incompatibilidade idade-série.

Atualmente, conforme dados do UNICEF, o DF possui 33.914 estudantes em distorção idade-série no Ensino Fundamental e 16.151 no Ensino Médio. Considerando as unidades da federação em 2025, o DF tem a 15ª menor taxa de distorção idade-série entre alunos do Ensino Fundamental e a 14ª menor entre os do Ensino Médio. Os dados são do Ministério da Educação.

Erondina Barbosa, Oficial de Educação do UNICEF no Brasil, explicou ao Jornal de Brasília que a distorção de idade-série é um dos problemas mais graves no país, e que essa realidade vem mudando ao longo dos últimos anos. “O que a gente tem observado nos últimos anos é que os governos – nacional, estaduais, municipais – têm trabalhado numa perspectiva de desenvolver políticas ou de implementar políticas focadas sobretudo nos anos finais do ensino fundamental, que era uma etapa onde isso era muito grave”, comentou.

Erondina também citou que a pandemia de covid-19 foi um fator que acentuou lacunas de aprendizagem que já existiam antes. “Basta você pensar, por exemplo, numa criança que estava no processo de alfabetização. Não tinha aula presencial, então ela teve que fazer o processo de alfabetização dela à distância. Essa criança acumulou lacunas de aprendizagem, ela deixou de aprender conteúdos. Quando acaba a pandemia, os governos começam a falar em recomposição das aprendizagens. Então, hoje nós temos políticas nacionais e políticas locais de recomposição das aprendizagens”, destacou.

Desafios para continuar evoluindo

Apesar dos avanços, ainda existem muitos estudantes que precisam superar o atraso escolar. “A gente tem que garantir a aprendizagem para eles. Então a gente tem que pensar que esses meninos e essas meninas têm direito de aprender. Um desafio é pensar em como recompor isso em qualquer época. Se um aluno chega no 6° ano sem saber ler e escrever adequadamente, a solução não é simplesmente reprovar. A solução é ensinar”, contou Erondina.

Além disso, continuou a oficial do UNICEF, “nós não defendemos a reprovação, mas também não defendemos a aprovação sem aprendizagem”. De acordo com ela, as lacunas de aprendizagem dos estudantes com atraso escolar devem ser um caso à parte para escola, professores e família. “A gente sabe que as crianças e adolescentes em distorção idade-série estão nessa situação porque foram reprovados, ou porque entraram tardiamente na escola, abandonaram a escola e voltaram. Esses meninos e essas meninas são os mais propensos a abandonar a escola, ingressar prematuramente e precariamente no mercado de trabalho e até se tornarem vítimas de violências”, detalhou.

Para Erondina, o Brasil está no caminho certo. Existem políticas consideradas sólidas em todos os níveis da federação, inclusive voltadas para a formação de professores, um dos desafios históricos do país segundo a especialista. Segundo ela, a estratégia Trajetória de Sucesso Escolar que ajudou a traçar programas como o SuperAção se expande pelo país. Atualmente, além do DF, a iniciativa está em outros seis estados: Acre, Amapá, Espírito Santo, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro e Sergipe.

Os dados analisados pelo UNICEF, tendo como fonte o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mostraram que a redução da distorção idade-série aconteceu em todas as etapas da Educação pública, em todas as regiões e em todos os estados brasileiros. “Para nós do UNICEF, a educação é fator de proteção. A criança e o adolescente, dentro da escola aprendendo, estão mais protegidos do que estariam fora dela”, completou Erondina.

Deixe comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos necessários são marcados com *.