Chile afastou, julgou e até prendeu ministros da suprema corte em pouco mais de 1 ano
Entre outubro de 2024 e dezembro de 2025, o Chile destituíu três ministros da Corte Suprema por meio de acusação constitucional, o mecanismo equivalente ao impeachment previsto na Constituição do país. O terceiro caso, o do ministro Diego Simpertigue, foi aprovado pelo Senado em 22 de dezembro de 2025. A ex-ministra Ángela Vivanco, destituída em outubro de 2024, foi detida em janeiro de 2026 e permanece em prisão preventiva, investigada por cohecho (corrupção) e lavagem de dinheiro no chamado “caso bielorrusso” ou “trama bielorrusa”.
A imagem viralizada por contas como Topplay News resume esses episódios com a frase “em apenas 4 meses, Chile faz o terceiro impeachment de ministro da Suprema Corte; um deles já foi direto para a cadeia”. O recorte temporal e a formulação são imprecisos — as três destituições ocorreram em um intervalo de cerca de 14 meses —, mas o núcleo dos fatos é real: três integrantes do mais alto tribunal chileno perderam o cargo em um período curto, e uma delas está presa.
Os três casos
Ángela Vivanco foi destituída em outubro de 2024 após a revelação de mensagens com o advogado Luis Hermosilla no “caso audios”. O Senado a considerou responsável por “notable abandono de deveres”. Em janeiro de 2026, a Fiscalía a formalizou por três delitos de cohecho e um de lavagem de ativos, acusando-a de ter recebido pagamentos em troca de decisões favoráveis ao consórcio chileno-bielorrusso Belaz-Movitec em litígio contra a estatal Codelco. Ela se tornou a primeira ex-integrante da Corte Suprema a ficar em prisão preventiva no Chile.
Sergio Muñoz, destituído no mesmo mês de outubro de 2024, foi acusado de ter passado informação privilegiada à filha, também juíza, sobre um projeto imobiliário no qual ela tinha interesse, e de não ter se inabilitado. O Senado aprovou a acusação por notable abandono de deveres.
Diego Simpertigue foi destituído em 22 de dezembro de 2025. O Senado aprovou por unanimidade o capítulo da acusação relativo à sua atuação no mesmo litígio Belaz-Movitec contra a Codelco. Os acusadores apontaram falta de imparcialidade e de probidade, incluindo viagens e relações próximas com os advogados da empresa após decisões favoráveis a ela. Ele também foi inabilitado por cinco anos para cargos públicos.
O que ocorre em 2026
Em 2026, a Corte Suprema chilena, presidida por Gloria Ana Chevesich, abriu 56 a 58 “cuadernos de remoción” contra juízes de instâncias inferiores (e alguns ministros de Cortes de Apelaciones) acusados de viajar ao exterior enquanto estavam de licença médica. O processo, baseado no artigo 80 da Constituição (“buen comportamiento”), ainda está em andamento e gerou alertas da relatora da ONU para independência judicial e de entidades internacionais sobre riscos ao devido processo. Não se trata de novos impeachments de ministros da própria Corte Suprema.
A onda de destituições de 2024-2025 e a posterior prisão de Vivanco ocorreram em meio a uma crise de credibilidade do Poder Judicial chileno, marcada pelo caso Hermosilla e por questionamentos de imparcialidade em causas de alto valor econômico. O mecanismo de acusação constitucional exige aprovação da Câmara e do Senado e tem sido usado com frequência inédita contra a cúpula da magistratura.