Vorcaro determinou a derrubada de matérias do Jornal de Brasília

Por Suzano Almeida e Olavo David

Registros de conversas em aplicativos de mensagens extraídos pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, com seu braço direito Luiz Phillipe Mourão, o “Sicário”, revelam uma operação articulada que teve como um de seus principais alvos o portal do Jornal de Brasília. As capturas de tela mostram negociações e ordens expressas para censurar e remover matérias do veículo que expunham fraudes e erros apontados pelo Tribunal de Contas da União (TCU).

Nas trocas de mensagens entre os interlocutores identificados como “Felipe Mourão” e “DV” – abreviação para Daniel Vorcaro –, o Jornal de Brasília aparece de forma recorrente no centro do monitoramento e das ações de derrubada de conteúdo.

Em outubro de 2024, mensagens atribuídas a Sicário mostram a comemoração e a confirmação de que conteúdos do portal haviam sido derrubados com sucesso.

A primeira investida registrada mira a apuração do veículo sobre o relatório do órgão de contas:

“Esse aqui já vamos derrubar: https://jornaldebrasilia.com.br/noticias/economia/tcu-aponta-erros-da-caixa-asset-em-analise-da-compra-de-papeis-do-banco-master/“

Pouco tempo depois, em tom de confirmação, o mesmo interlocutor celebra o resultado da interferência:

“Derrubamos esse outro link, e estamos em cima de derrubar o link principal do folha”, referência à Folha de São Paulo.

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Imagem da determinação de Vorcaro para derrubar matérias do site do Jornal de Brasília

“Tirar do ar agora!!”

A ofensiva contra o Jornal de Brasília voltou a se repetir em setembro de 2025. Em novo diálogo, o usuário “DV” encaminha um link da coluna Do Alto da Torre, também publicada pelo jornal, cuja reportagem abordava depoimentos detalhando como instituições operavam para lesar aposentados e pensionistas.

Na sequência da conversa, a ordem para intervir na publicação do Jornal de Brasília foi imediata.

  • Felipe Mourão: “O que é para fazer??”
  • DV: “Tirar do ar”
  • Felipe Mourão: “Agora!!”

Na data das conversas, a equipe técnica do site percebeu a tentativa de invasão do sistema, mas rapidamente tudo foi reestabelecido. Entretanto, o material original acabou sendo prejudicado e o arquivo corrompido posteriormente.

Em nota (confira a integral ao final da matéria), o Jornal de Brasília afirmou que “repudia veementemente qualquer tentativa de cercear o livre exercício da imprensa. Não se trata de defesa corporativa. A liberdade de informar é garantia constitucional e existe, antes de tudo, para proteger o direito do cidadão de saber. Quem tenta apagar uma reportagem não atinge apenas o jornal que a publicou. Atinge também o leitor, que deixaria de conhecê-la”.

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Imagem da determinação de Vorcaro para derrubar matérias do site do Jornal de Brasília.

A Turma

Mourão era o encarregado de constranger adversários, extrair dados sigilosos de sistemas policiais e de órgãos como o Banco Central, além de apagar notícias desfavoráveis. Ele era o responsável pelo núcleo conhecido como “A Turma”.

Sicário morreu em março de 2026 após ser preso preventivamente pela Polícia Federal em Belo Horizonte e sofrer enforcamento nas dependências da corporação, vindo a falecer no hospital.

Liberdade de imprensa

Não é a primeira vez que mensagens entre Vorcaro e Mourão indicam que o grupo buscava silenciar jornalistas e retirar de circulação matérias e reportagens consideradas nocivas aos interesses do ex-dono do Banco Master. Em março, foi revelado também pela imprensa que o colunista de O Globo Lauro Jardim era um dos alvos, inclusive com manifesto desejo de “quebrar os dentes” do jornalista, que havia revelado verdades inconvenientes para o ex-banqueiro.

A revelação do monitoramento de jornalistas do Jornal de Brasília ajuda a reforçar um entendimento de que o jornalismo profissional era um dos alvos de Vorcaro, que, por sua vez, investia milhões de reais em gestores de mídia e até repórteres para veicular apenas notícias favoráveis aos seus interesses. Para Bruno Henrique de Moura, advogado e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), a ação é preocupante, mas não surpreendente.

“Atitudes como a requerida por Daniel Vorcaro são inaceitáveis sob quaisquer prismas – legal, constitucional, jurisprudencial, mas corriqueiras. Cabe a nós, como sociedade civil, e aos órgãos de controle, investigar e punir adequadamente quem se valer do poder econômico, jurídico e da violência para achincalhar o jornalismo profissional”, pontua Moura.

Ao Jornal de Brasília, ele ainda traçou um histórico de desrespeitos ao exercício do jornalismo no país. “Nossa imprensa nasceu amordaçada por D. João IV, pois qualquer impresso deveria ser aprovado pela Corte”, explica. “Na maior parte da história, a imprensa foi alvo de mecanismos de controle, seja no império, no período varguista e especialmente de 1968 a 1985”, cita Moura.

Segundo explica, foi justamente esse o ponto que os legisladores atacaram ao promulgar a Constituição de 1988, a “Constituição cidadã”. “A diferença é que a Constituição de 1988 extirpou mecanismos de censura e a interpretação dos tribunais, majoritariamente, repele condutas censórias”, finaliza. Na Carta Magna, o direito de publicação jornalística é garantido como “liberdade de informação jornalística” e define não apenas os limites do Estado para a lida com a imprensa, mas também a sociedade civil – como é o caso de Vorcaro, Mourão e qualquer outro cidadão.

Editorial: A verdade não sai do ar

O Jornal de Brasília tomou conhecimento, nesta data, de mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, nas quais ele ordena a Luiz Phillipi Mourão que sejam retiradas do ar reportagens publicadas por este veículo. As conversas mencionam, inclusive, um dos diretores desta empresa. Elas revelam o incômodo com um jornalismo que não se alinhou aos interesses do grupo, e a disposição de silenciá-lo.

Mourão, identificado nas investigações pelo apelido de “Sicário”, é apontado pela Polícia Federal como coordenador do grupo chamado de “A Turma”. A PF atribui a esse núcleo intimidação, monitoramento, obtenção de informações sigilosas e remoção de conteúdos da internet. O episódio envolvendo o Jornal de Brasília não é isolado. Ele se soma a um padrão que vem sendo exposto, peça por peça, à medida que o material apreendido se torna público, e que atingiu outros veículos e profissionais de imprensa.

O Jornal de Brasília repudia veementemente qualquer tentativa de cercear o livre exercício da imprensa. Não se trata de defesa corporativa. A liberdade de informar é garantia constitucional e existe, antes de tudo, para proteger o direito do cidadão de saber. Quem tenta apagar uma reportagem não atinge apenas o jornal que a publicou. Atinge também o leitor, que deixaria de conhecê-la.

Manifestamos nossa solidariedade aos demais veículos e jornalistas que, segundo as investigações, foram alvo de vigilância, pressão ou ataques por parte de Daniel Vorcaro e de sua equipe. A tentativa de intimidar um profissional de imprensa é uma ameaça a todos.

A imprensa cumpre papel fundamental numa sociedade democrática. Investigar, checar e esclarecer fatos é a razão de ser do jornalismo, sobretudo quando envolvem o poder econômico e suas relações com o poder público. No caso do Banco Master, poucos temas poderiam ser mais relevantes para o leitor do Distrito Federal. A Operação Compliance Zero foi deflagrada pela PF em novembro de 2025 para apurar suspeitas de fraude na venda de carteiras de crédito do Master ao BRB, o banco público de Brasília.

O caso trouxe à tona um esquema de proporções nacionais, cujos desdobramentos alcançam diferentes esferas do poder público. Ele precisa ser investigado até as últimas consequências, com a devida punição de quem tiver cometido crimes. Isso deve ocorrer com respeito ao devido processo legal e ao direito de defesa. Por respeitar esses princípios, o jornalismo sério não se confunde com julgamento: seu compromisso é com os fatos.

O Jornal de Brasília seguirá cumprindo sua missão de informar seus leitores sobre a verdade dos fatos, com independência e seriedade, como o verdadeiro jornalismo deve ser. Nenhuma ordem para derrubar reportagens mudará isso.

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