Pedidos de internação compulsória por álcool e drogas crescem 156% no DF

A perda de controle sobre o próprio consumo de drogas foi o sinal que levou o pastor Willian Zacarias, de 42 anos, a reconhecer que precisava de ajuda. O que começou com o consumo de álcool, aos 21 ou 22 anos, durante uma temporada no exterior, evoluiu para o uso de maconha, cocaína, drogas sintéticas e crack. Ao longo de cerca de dez anos, o vício trouxe perdas pessoais e comprometeu oportunidades. “Eu percebi que estava viciado quando perdi o controle”, relata. A experiência o levou a procurar tratamento especializado e passar por internações voluntárias, trajetória que ajuda a ilustrar os desafios enfrentados por pessoas com dependência química e suas famílias.

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Fotos: cedidas ao jornal, projeto social do pastor personagem Willian Zacarias

No Distrito Federal, a busca por internação compulsória também aparece nos registros oficiais. Dados do mapa social do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) apontam 167 registros de ações em 2026, ante 65 no mesmo período de 2021, aumento de 156,9%. Na comparação com os 155 registros do período correspondente de 2025, a alta é de 7,7%. Os números representam a procura pela via judicial e não devem ser confundidos com o total de pessoas com dependência química ou com todas as internações realizadas na rede pública.

A Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) realizou 128 internações compulsórias em Centros de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas (CAPS AD) até agosto de 2026. Em todo o ano de 2025, foram 186. Nos leitos hospitalares, foram registradas 28 internações até agosto deste ano, ante 44 ao longo do ano passado. Os dados mostram a dimensão da demanda por atendimento especializado, mas, isoladamente, não permitem determinar as causas do aumento dos pedidos judiciais.

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Fotos: cedidas ao jornal, projeto social do pastor personagem Willian Zacarias

Para a neuropsicóloga Fabiane Fagundes, a dependência química é um problema multifatorial, que pode envolver vulnerabilidade biológica, sofrimento emocional, traumas, ansiedade, depressão, pressão social e dificuldade de acesso ao apoio. Segundo a especialista, o consumo também pode funcionar como uma tentativa de aliviar emoções difíceis, criando um ciclo de repetição. “Isso não é falta de caráter: é um problema de saúde que precisa de cuidado”, afirma.

Willian conta que, inicialmente, acreditava conseguir controlar o consumo, restrito a festas e fins de semana. A situação mudou quando o uso passou a ser diário e a ausência da substância provocava irritabilidade, desespero e uma necessidade intensa de consumir. Ao perceber que não conseguia interromper o comportamento sozinho, decidiu procurar ajuda. A revelação surpreendeu os familiares, que não imaginavam a gravidade do problema. Ele defende que, em situações extremas, a internação compulsória pode ser necessária, desde que o atendimento seja humanizado. Willian, porém, ressalta que nunca passou por essa modalidade específica: suas experiências foram em internações voluntárias.

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Fotos: cedidas ao jornal, projeto social do pastor personagem Willian Zacarias

A distinção é importante. A internação voluntária ocorre com o consentimento da pessoa; a involuntária é realizada sem esse consentimento, a pedido de terceiro e conforme os requisitos legais; já a compulsória é determinada pela Justiça. A indicação de internação depende de avaliação individual e das condições clínicas e psicossociais, não apenas do tempo ou da quantidade de substância consumida.

Fabiane explica que a hospitalização pode ser indicada em situações que exigem monitoramento contínuo, como intoxicação grave, abstinência com risco de convulsões ou delirium, complicações clínicas, risco significativo de suicídio ou incapacidade de permanecer em segurança. “A decisão é individual: não se define apenas pela quantidade ou pelo tempo de uso”, afirma. A especialista também destaca que a internação, por si só, não garante a recuperação. O acompanhamento após a alta, o apoio familiar e a continuidade do tratamento são fundamentais para reduzir o risco de recaídas.

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Fotos: cedidas ao jornal, projeto social do pastor personagem Willian Zacarias

No Sistema Único de Saúde (SUS), o atendimento é organizado pela Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que inclui as Unidades Básicas de Saúde (UBSs), os CAPS AD, os serviços de urgência e os hospitais. Segundo informações do Ministério da Saúde, os atendimentos relacionados ao uso de álcool nas UBSs do DF passaram de 6.202, em 2022, para 8.054, em 2025, aumento de 29,9%. A pasta informa que o cuidado deve priorizar os serviços da rede, respeitando os direitos, a autonomia e os vínculos familiares. A internação deve ser indicada quando os recursos extra-hospitalares não forem suficientes para atender às necessidades da pessoa.

O DF dispõe de 45 leitos de saúde mental em sete hospitais de referência, segundo o Ministério da Saúde. Para quem precisa de atendimento, a orientação é procurar uma UBS ou um CAPS AD, onde a equipe pode avaliar o caso e definir o plano terapêutico. A pasta também disponibiliza o Modera Brasil, ferramenta acessível pelo aplicativo Meu SUS Digital que oferece um autoteste para identificar padrões de consumo de risco, orientações personalizadas e informações sobre como buscar ajuda no SUS.

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