Assessor parlamentar pede lotes e faz ameaças na ocupação Nova Jerusalém

Entrar no Nova Jerusalém é quase uma viagem no tempo. A primeira rua da invasão é a única que tem meio-fio – ainda pintado para a Copa do Mundo, mas com menos de 20 metros – e iluminação pública, garantida por oito postes. De resto, a terra rubra toma conta do chão e do ar, com nuvens de poeira levantadas por carros e vento. Não há alvenaria. As casas são todas de madeira, madeirite, papelão, lonas e pedaços de vidro como janelas. Ainda assim, tudo é muito bem organizado. 

A Rua 1 margeia a BR-060 na altura do Núcleo Rural Vale da Bênção, próximo a Samambaia, e as casas são distribuídas com tamanhos iguais, com espaço para um quintal pequeno e a construção propriamente dita. Só há luz nas residências, que pegam energia da fiação pública que passa pelo local. A água para abastecer as cerca de 800 famílias que vivem no local vem de poços artesianos – mas já veio de caminhões-pipa pagos pelos moradores. “Era uma água tão ruim que uma moça perdeu a gravidez”, comenta Cícero Eronildo, presidente de uma das associações de moradores do local. 

Além de pastor e líder comunitário, Cícero é pedreiro e chega a rir da ironia de morar num local com raros relances de cimento. “É uma diretriz nossa”, conta. “Preferimos não fazer com alvenaria para não atrapalhar o processo de regularização”. E é um processo longo. Os primeiros barracos foram erguidos em 2017 no bojo do Movimento Sem Terra (MST), por meio de um braço chamado Frente Nacional de Luta (FNL), e a terra foi batizada de “Acampamento Che Guevara”, em homenagem ao argentino Ernesto Guevara, um dos símbolos da esquerda revolucionária no século XX. 

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Cícero posa em frente à igreja evangélica da qual é frequentador e missionário. Foto: Olavo David/Jornal de Brasília

O tempo passou e mais famílias foram chegando, como a de Fábio Dias, também pastor, que se instalou por lá em 2019. Em 2022, uma guinada ideológica: de batismo em homenagem a um guerrilheiro, virou “Nova Jerusalém”, de inspiração bíblica na interpretação neopentecostal, que aproxima o cristianismo do judaísmo, e demonstraram claramente o apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na tentativa frustrada de reeleição. 

A batalha pela terra

Finda a crise sanitária de 2020, em função da covid-19, começaram os processos oficiais para regularização da terra, mas, entre idas e vindas e falhas da antiga liderança, não houve qualquer avanço. Uma divisão entre os moradores gerou uma nova agremiação de representação, a Associação de Moradores Urbanos e Rurais da BR-060 (Asmob), liderada por Cícero. No início deste ano, começaram a buscar novas saídas junto à Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) e outras instituições governamentais. E aí um “forasteiro” apareceu na região. 

Irany Domingos Gomes se apresentou no Nova Jerusalém do mesmo jeito que se apresenta nas redes sociais: como um assessor do deputado distrital Hermeto (MDB) oficializado como preposto do gabinete para questões de regularização de terras. A partir de março, juntou os moradores e as associações, traçou planos, designou pessoas do local para atuar como postos avançados dele no acampamento e disse estar na labuta para conquistar o espaço que eles ocupam há quase dez anos. Irany demonstrava aos moradores uma intimidade com o Poder Público, sobretudo em questões fundiárias.

E passou a usar disso para conquistar mentes e corações no acampamento, mas tudo azedou em maio. No dia 9, Irany interpelou membros da associação com palavras duras. “Eu quero que a associação se foda”, disse, segundo os relatos. No mesmo dia, conforme áudio obtido pelo Jornal de Brasília e confirmado com publicações de Irany nas redes sociais, ele se queixa de que os moradores procuraram outro gabinete para resolver a questão da regularização – de Rafael Prudente, correligionário de Hermeto e deputado federal. 

“O que que eu quero? Eu quero ajudar a população pra ser ajudado. Eu não me importo quem é Maria, José, João… Só que Maria, José, João, todo mundo é eleitor”, disse. Um morador retrucou: “aqui não é exclusivo, não”. 

Nesta mesma conversa, que contou com cinco moradores e se passou em uma mercearia, Irany teria se recostado na janela de vidro “depois de olhar de forma ameaçadora” e, aproveitando-se do calor, levantado a blusa e deixado à mostra uma arma de fogo na própria cintura. O episódio resultou em um boletim de ocorrência lavrado na Polícia Civil no mesmo dia. Em 8 de junho, uma manifestação foi registrada na Ouvidoria do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). A promotoria cuida do caso em sigilo. 

Em conversa com o Jornal de Brasília, Irany confirmou o conteúdo dos áudios, mas disse que montou “uma armadilha”, pois, segundo ele, estaria desconfiado da formação de grupos criminosos com atuação territorial na região, mas negou que o método seja conhecido ou aprovado pelo deputado Hermeto.

“Pastorzinho de merda”

A partir daí, só confusão. Irany passou a atuar nos grupos de mensagens para descredibilizar a imagem tanto de Fábio, quanto de Cícero, além de outras pessoas que se envolveram com ele em um primeiro momento. Um morador confirma à reportagem que presenciou uma cena em que o homem gritava “cadê aquele pastorzinho de merda?”, referindo-se a Fábio. O assessor também apontou ao JBr. possíveis crimes e problemas com a Justiça das duas lideranças comunitárias, algo que a reportagem não conseguiu confirmar.

Irany mostrou diversos documentos, entre ofícios e processos, que falam sobre a regularização das terras da região. Conforme disse, há entraves para a oficialização do local que passam desde a judicialização sobre a posse da terra – dividida entre Terracap e um fazendeiro.

Em áudio obtido pelo Jornal de Brasília, cuja voz foi confirmada como de Irany após comparações com publicações nas redes sociais do assessor, ele pede um terreno para si e para um tratoreiro ligado à Secretaria de Governo (Segov) como garantia para a realização de melhorias na região. “Arruma aí um espaço para esse menino que o cara arruma a máquina, eu vou tentar o combustível para final de semana”, propõe.

“Sábado e domingo ele vai estar aqui, né? Mas não conta lá?”, pergunta um morador. “Não, porque o GPS é desligado”, responde Irany, ao citar o meio de localização do veículo. “Aí passa a ser problema de vocês, eu estou fazendo tudo para ajudar a comunidade”, afirma, no áudio. “Se é uma coisa que a gente pode fazer na manha, por quê vamos complicar?”, completa.

Não tem só analfabeto”

Irany ainda instrui os moradores a não efetuar novos pagamentos para o tratoreiro – identificado apenas como “Leo” – e disse que a população poderia acioná-lo em caso de desavenças com o trabalhador. “Ó, quem tá arrumando é o Irany”, exemplifica o assessor parlamentar. “Podem me chamar para [resolver] a parada. ‘Se tu pisar na bola, a gente derruba esse barraco’. Deixa que eu falo, pra vocês não se queimarem, porque ele já sabe que eu sou sem noção”, comenta, à boca pequena.

Sobre este episódio, Irany informou que mesmo o maquinário empregado pelo Governo do Distrito Federal é obtido por meio de contratos de aluguel com empresas particulares e que seria este o caso em questão. Também disse que o combustível foi obtido por meios lícitos e oficiais, mas não apresentou os registros. “Quem tem o ofício é a Segov”, destacou. O assessor também se defendeu das acusações. “Não tem só analfabeto lá, não, tem gente ganhando muito dinheiro”, disse. “Metade precisa, mas tem outra metade que quer ganhar em cima dos outros; eu quero ajudar a comunidade”, completou.

Instada, a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) informou ao JBr. que a “Unidade de Proteção Social (UPS) fará um levantamento socioassistencial, que consiste em um relatório elaborado a partir de visitas técnicas realizadas por especialistas da assistência social à comunidade local”. A pasta também destacou que “a UPS está promovendo uma força-tarefa para acelerar o processo. O prazo previsto para a conclusão do levantamento é de 60 dias, podendo ser prorrogado caso seja constatada a necessidade”, e que, após esses estudos, “o relatório será compartilhado com os demais órgãos envolvidos, a fim de subsidiar a atuação integrada e a adoção das providências necessárias”.

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