Candidato à CLDF, Caio Gracco defende mudanças no sistema de gestão da Saúde

O convidado desta edição é médico cirurgião e candidato a deputado distrital pelo Avante no Distrito Federal, Caio Gracco. Ele construiu sua trajetória conciliando a atuação médica com a defesa da valorização dos profissionais de saúde e do fortalecimento do SUS. Entre suas principais bandeiras estão a valorização dos residentes-médicos e melhorias salariais para os médicos.

Gostaria de pedir que você se apresente e nos conte como entrou para a política e por que decidiu ser candidato agora?

Eutenho 29 anos, sou médico e cirurgião. Trabalho tanto na rede pública quanto na privada. Minha trajetória na política e na liderança começa na universidade. Ainda na faculdade, fui presidente do Centro Acadêmico de Medicina e vice-presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE). A universidade em que estudei era grande, tinha cerca de 15 a 20 mil alunos na época, e eu sempre gostei disso — fui representante de turma e ocupei cargos de liderança. Depois que me formei, decidi fazer residência em Cirurgia Geral. Durante a residência, identifiquei diversos problemas e injustiças. Vi que precisávamos nos mobilizar. Acabei assumindo o cargo de presidente da Associação Brasiliense de Médicos Residentes (hoje temos cerca de 2 mil residentes no DF) e de vice-presidente da Associação Nacional de Médicos Residentes, que representa 54 mil residentes no Brasil inteiro. Além disso, ocupo a função de conselheiro na Comissão Nacional de Residência Médica, um órgão do MEC responsável pelas deliberações de instância superior sobre o tema. Estou envolvido em todas essas pautas e, agora, apresento-me pela primeira vez como pré-candidato.

Conte-me um pouco da sua história pessoal, da sua família. Como decidiu ser médico? Veio de uma família de médicos?

Não venho de uma família de médicos. Nasci em Brasília e tenho três irmãos. Meu pai é da área do Direito, minha mãe se formou em Administração e meus irmãos foram todos para o Direito. Na época do vestibular, eu hesitava. Gostava de Medicina, mas sofria a influência familiar positiva e a admiração pelo meu pai e pelo meu irmão mais velho. Pensei bastante, acabei seguindo o caminho da Medicina e sou muito feliz nele.

O senhor conhece o gargalo da residência médica. Como analisa a situação hoje e o que pode melhorar na formação dos médicos residentes?

O médico recém-formado é como uma argila: precisamos moldá-lo da melhor forma para que cumpra o seu papel em uma especialidade. O caminho para isso é a residência médica, que é o padrão-ouro. Hoje, teoricamente, o residente cumpre uma carga horária de 60 horas semanais — digo “teoricamente” porque, na prática, chega a 80 ou 100 horas —, com uma remuneração muito indevida: cerca de R$ 3.600,00 líquidos. Aqui no DF, felizmente, temos um auxílio-moradia que ajuda a deixar a bolsa na casa dos R$ 4.800,00, o que equivale a cerca de R$ 20 por hora. É um valor muito aquém do necessário para um profissional que cuida diretamente da saúde e do corpo humano de outra pessoa.

E qual seria o próximo passo para essa valorização?

Uma das principais medidas seria a valorização salarial da bolsa de residência e do auxílio-moradia. Isso permitiria que o profissional se dedicasse de forma mais integral à residência, especializando-se melhor e prestando um serviço superior à sociedade. O cenário atual obriga o residente a dar plantões por fora para se sustentar, o que compromete sua formação.

Sabemos que a rede privada e a rede pública possuem realidades e salários diferentes. Como avalia a remuneração dos médicos nessas duas esferas no DF?

É uma situação bastante complicada. A rede pública está com salários extremamente defasados. Um médico da Secretaria de Saúde com carga de 20 horas semanais ganha cerca de R$ 7 mil brutos — com os descontos, fica bem menos. Esse valor recebeu um reajuste recente de apenas 6%, após muitos anos sem correção. Para 40 horas, seriam R$ 14 mil brutos. Enquanto outras categorias tiveram reajustes merecidos nesse período, a classe médica foi deixada de lado. Precisamos dessa valorização: quanto mais valorizado for o profissional de saúde, melhor será o atendimento prestado. Um médico estressado e cheio de problemas dificilmente conseguirá dar um bom atendimento. Um reajuste de 6% é quase pior do que nada, pois serve para o governo tentar derrubar o argumento de que a categoria está há mais de uma década sem recomposição. É um valor irrisório e deveria acompanhar a inflação.

O DF possui modelos de gestão mistos. Como o senhor analisa esse sistema e o que pode ser melhorado?

A Secretaria de Saúde é responsável pelas UBSs e hospitais regionais, enquanto o Instituto de Gestão em Saúde do DF Iges-DF) – uma SSA (serviço social autônomo) – gere as UPAs, o Hospital Regional de Santa Maria e o Hospital de Base. São modelos que não se integram e não conversam entre si. Temos um cenário de gestão muito ruim. O Iges acabou se tornando um cabide de empregos — dos últimos cinco presidentes, dois foram presos. A maior prova de que o instituto virou caso de polícia é que o próprio governo colocou um delegado para presidi-lo.

O senhor defenderia o fim do Iges-DF?

Não necessariamente o fim, até porque o instituto cresceu tanto que a Secretaria de Saúde não teria estrutura imediata para absorver tudo. O que precisamos é repensar o modelo e fazer uma gestão técnica e justa. Não faz sentido nomear uma pessoa sem formação ou vivência na área da saúde para presidir uma estrutura dessas. Não precisamos extingui-lo, mas sim modernizá-lo e mudar drasticamente sua gestão.

O que pode ser feito para reduzir drasticamente a fila de cirurgias e esse tempo de espera na Capital Federal?

Essa questão possui muitas camadas, mas o problema começa na Atenção Básica. Ela precisa ser forte e presente. O DF tem 3 milhões de habitantes, um orçamento anual de R$ 13 bilhões para a saúde e uma área geográfica pequena. A Política Nacional de Atenção Básica recomenda uma equipe da Estratégia Saúde da Família para cada 3.500 pessoas. Para cobrir nossa população, precisaríamos de 850 equipes, mas hoje temos apenas 580. Para alcançar a meta, faltam mais de 250 equipes (cada uma composta por médico, enfermeiro, técnico de enfermagem e agentes comunitários). A Atenção Básica deveria resolver entre 80% e 90% dos problemas de saúde. Quando ela falha, o paciente recorre ao hospital, superlotando a urgência e a emergência. Um problema simples não tratado na ponta acaba virando uma cirurgia complexa no futuro. Além de fortalecer a Atenção Básica, podemos adotar duas soluções aplicadas em outros estados: hospital exclusivo para cirurgias eletivas: A exemplo do Rio de Janeiro, um centro dedicado reduz drasticamente as filas cirúrgicas. E Ambulatórios de Medicina Especializada (AMEs): Como é feito em São Paulo (um para cada 500 mil habitantes). Se tivéssemos seis AMEs no DF, reduziríamos substancialmente as filas de consultas especializadas e exames.

O senhor é candidato a deputado distrital pelo Avante. Como foram as conversas para definir sua filiação e sua entrada na política eleitoral?

Sempre me interessei por política, mas antes atuava no meio universitário e de classe. Recebi o convite do partido por meio de conhecidos e tivemos uma conversa pautada em propósitos, não apenas em promessas. Como alguém com voz e vivência na saúde, vi a oportunidade de ajudar a construir soluções reais ao lado de pessoas bem-intencionadas e com histórico de trabalho pelo DF. Isso me motivou a assumir essa pré-candidatura.

A campanha oficial se aproxima. Quais são as suas principais propostas para a Câmara Legislativa?

Além do fortalecimento da Atenção Básica (que exige a construção de cerca de 75 novas UBSs ou a ampliação das existentes), trago outras propostas prioritárias, como a expansão da rede de UPAs. Treze UPAs é um número insuficiente para 3 milhões de habitantes. Maior atenção à saúde mental. Entre 2014 e 2025, os afastamentos por transtornos mentais cresceram quase 200% no Brasil. No DF, temos apenas 18 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Precisamos expandir essa rede e criar ambulatórios especializados em Psiquiatria para garantir um acompanhamento contínuo e prevenir crises.

Na CLDF já existem parlamentares ligados à saúde. Qual é a sua leitura sobre a atuação das categorias da saúde e a representação política atual?

Os desafios da saúde não afetam apenas os médicos; impactam enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas e técnicos. Todos sofrem com salários defasados, falta de plano de carreira e escassez de insumos. As categorias precisam se unir para eleger representantes comprometidos com a saúde pública de forma ampla. O diferencial que propomos é a renovação. Hoje vemos deputados que defendem interesses próprios ou corporativos e que pouco produziram ao longo dos anos. A política precisa de sangue novo, de pessoas dispostas a mudar um sistema viciado, sem abrir mão do diálogo e da experiência. Os desafios da saúde pública no DF são gigantescos, mas não podem servir de desculpa para ficarmos inertes. Coloco-me à disposição como alguém que entende a realidade da saúde, gosta da área e tem muita vontade de trabalhar pela população do Distrito Federal.

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Caio Gracco/ Foto: Rodrigo Lima

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