Clubes poderão ajuizar ações contra a União em caso de rescisão de bets, prevê especialista

LUCAS BOMBANA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Após o governo federal anunciar o veto às operações das bets no Brasil, a maioria dos clubes da Série A do Campeonato Brasileiro patrocinados pelas empresas de apostas online optou pelo silêncio, no aguardo de eventuais desdobramentos da medida.

Na avaliação de juristas consultados pela reportagem, os cenários mais prováveis hoje apontam para as rescisões dos contratos milionários firmados ao longo dos últimos anos, com a possibilidade de as agremiações esportivas cobrarem o governo judicialmente pelas perdas financeiras que poderão sofrer.

Entre os quatro grandes times paulistas na elite do futebol brasileiro, Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Santos informaram que não vão se pronunciar no momento.

A CBF (Confederação Brasileira de Futebol), por sua vez, que negociou os “naming rights” do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil com a Betano, também disse que não iria se manifestar.

Segundo José Frederico Cimino Manssur, sócio do escritório Natal & Manssur Advogados e especialista em regulação de apostas esportivas e jogos online, os contratos de patrocínios normalmente possuem cláusulas expressas de rescisão, no caso de revogação da lei.

“Ou seja, os contratos serão automaticamente suspensos e extintos”, afirmou o especialista.

Ele acrescentou ainda que alguns clubes chegaram a antecipar valores previstos nos contratos, e, nesses casos, eles devem ser obrigados a restituir as bets.

“Agora, os clubes podem e devem ajuizar ações contra a União, justamente para serem ressarcidos dos prejuízos gerados. As empresas devem ajuizar ações também para serem ressarcidas pelas outorgas e pelos lucros cessantes”, disse Manssur.

“Acredito que, novamente, os clubes vão buscar socorro no governo federal para equacionar o endividamento via alongamento do pagamento dos tributos”, prevê Marcelo Robalinho, sócio do RA Law e mestre em Direito Empresarial e Direito Desportivo.

Na semana passada, quando começou a ganhar força no mercado os rumores sobre o veto das bets, os clubes chegaram a divulgar um manifesto em conjunto intitulado “O fim do futebol brasileiro”.

“Uma mudança abrupta nas regras reduziria a capacidade de investimento dos clubes e criaria desequilíbrios dentro e fora do país”, dizia trecho do manifesto.

Apesar dos protestos, as receitas oriundas das empresas de apostas online representam uma parte menor dentro dos orçamentos das principais equipes do país.

Em 2025, o patrocínio somado das bets aos clubes da Série A do Campeonato Brasileiro somou cerca de R$ 1,03 bilhão, um crescimento de aproximadamente 66% em relação ao valor de R$ 618 milhões que havia sido aportado pelas empresas do setor no ano anterior, de acordo com levantamento da consultoria Convocados.

Ainda assim, o montante injetado pelas bets representou apenas 7,2% das receitas totais de R$ 14,3 bilhões dos times que compunham a elite do futebol brasileiro no ano passado.

Conforme o levantamento da consultoria, o Flamengo -patrocinado pela Betano- era a equipe que tinha a maior dependência financeira do dinheiro oriundo das bets.

O contrato anual em um valor estimado de R$ 268 milhões representou cerca de 13,6% das receitas totais de R$ 1,973 bilhão do rubro-negro em 2025, em um ano em que a equipe carioca ainda teve a entrada de recursos impulsionada pela participação na Copa do Mundo de Clubes.

Nesta sexta-feira (25), horas antes do anúncio oficial do governo, o Flamengo divulgou um comunicado em que disse que o fenômeno das apostas esportivas “não vai acabar com uma canetada.”

“O esporte brasileiro não pode ser enfraquecido por uma decisão que não elimina o jogo, não elimina o mercado ilegal e ainda coloca em risco os investimentos, os empregos e os compromissos construídos dentro das regras que o próprio país estabeleceu”, disse o clube.

Da mesma forma, o Fluminense, patrocinado pela Superbet, também se manifestou horas antes do anúncio oficial de veto às apostas online, em que defendeu que “empresas que cumpriram a regulamentação e terceiros que firmaram contratos não podem ser surpreendidos de um dia para o outro.”

“O clube assumiu compromissos financeiros para este e os próximos anos contando com esses recursos”, afirmou o tricolor carioca.

Entre os clubes que compõem a Série A do Brasileirão em 2026, apenas o Grêmio se manifestou de forma oficial até aqui. O time gaúcho anunciou na quarta-feira (23) contrato de patrocínio com a bet Pitaco.

“O Grêmio aguardará os desdobramentos do tema nos próximos dias, a partir da publicação da medida pelo governo. A dimensão do impacto dessa decisão sobre as receitas da indústria do futebol precisará ainda ser mensurada pelos clubes e entidades esportivas de todo país”, destacou o clube.

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