Entenda por que Palmeiras é mais letal no ataque do que São Paulo no Brasileiro
LUCIANO TRINDADE
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Palmeiras e São Paulo criaram chances de gol em quantidade próxima no Campeonato Brasileiro, mas uma métrica ainda pouco conhecida do torcedor ajuda a mostrar por que o time alviverde tem 15 gols a mais do que o rival, uma diferença que, evidentemente, tem reflexo na classificação. Ao fim da 29ª rodada, o Palmeiras é o vice-líder, com 60 pontos, enquanto o São Paulo ocupa a 11ª posição, com 36.
Descrito em sites de estatísticas como xG, abreviação de “expected goals” (gols esperados), o indicador mede a probabilidade de uma finalização resultar em gol. Para chegar a esse número, os modelos são treinados com milhares de chutes históricos e identificam a frequência com que situações semelhantes terminaram em gol. Entre os fatores considerados estão a distância e o ângulo em relação à meta, a parte do corpo usada na finalização e o tipo de jogada.
Na prática, um chute de perto e de frente para o gol recebe um xG maior do que uma finalização de longa distância ou de ângulo fechado. Uma chance de 0,50 xG, por exemplo, significa que finalizações semelhantes terminaram em gol em cerca de metade das vezes na base usada pelo modelo. A soma dos valores de cada finalização de uma equipe produz o seu xG na partida ou no campeonato.
“O xG permite avaliar a qualidade das oportunidades criadas, algo que o placar isoladamente não revela”, disse à Folha Roger Machado, treinador e professor da CBF Academy.
O conceito, porém, não produz necessariamente o mesmo resultado em todas as plataformas. “Cada plataforma avalia o xG de forma diferente. Os dados primários são os mesmos, o que muda é a modelagem matemática, o peso de cada fator e a probabilidade atribuída a cada detalhe”, afirma Alexandre Vasconcellos, gerente regional da Flashscore no Brasil.
Os números usados nesta reportagem são os do FotMob. Ao fim da 29ª rodada, o Palmeiras tem 48 gols a partir de 35,5 gols esperados no Brasileiro, enquanto o São Paulo marcou 33 com 39,2 de xG. Ou seja, o time alviverde fez 12,5 gols a mais do que o modelo projetava, enquanto o rival marcou 6,2 a menos.
Traduzindo para uma linguagem mais simples, o ataque palmeirense vem fazendo muito mais gols do que a qualidade das chances criadas sugeriria, enquanto o são-paulino tem produzido oportunidades que não se transformam em gol na mesma proporção. Embora o São Paulo tenha acumulado um xG 3,7 pontos superior ao do Palmeiras, marcou 15 gols a menos. Em relação ao número de gols do rival, o time alviverde balançou a rede 45,5% mais vezes.
“O xG mostra a qualidade das oportunidades”, diz Roger. Mas o número, isoladamente, não explica a diferença. Segundo Toninho Cecílio, ex-jogador e diretor executivo de futebol, “não é adequado ter um número absoluto para tal pois o que é baixo para um atacante pode ser excelente para um médio”. Para ele, é preciso “ler o contexto tático”.
A diferença ajuda a dimensionar a distância entre as campanhas. O Palmeiras está a um ponto do líder Flamengo, que tem 61, enquanto o São Paulo aparece 24 pontos atrás do time alviverde após 29 rodadas.
O Santos, oitavo colocado com 42 pontos, tem 40,8 de xG e marcou 45 gols; o Corinthians, 16º com 32 pontos, apresenta 30,6 de xG e fez 30 gols.
Nos números dos quatro grandes paulistas, o contraste fica mais claro. O Palmeiras tem 35,5 xG e 48 gols, desempenho que representa a maior diferença positiva entre gols marcados e esperados entre os quatro clubes. O Santos tem 40,8 xG e 45 gols, o São Paulo tem 39,2 e 33, e o Corinthians, 30,6 e 30.
A relação entre gols e xG, no entanto, é apenas o ponto de partida. “Analisar a relação xG x gols marcados é o básico”, afirma Toninho Cecílio. Ele ressalta que os dados precisam ser comparados com o adversário, a competição e a posição do jogador, além do sistema tático utilizado.
Em outras palavras, o xG ajuda a mostrar não apenas quantas chances um time cria, mas o quanto ele consegue transformar essas chances em gols.