Luta debaixo do sol | Jornal de Brasília

Há 15 anos, Claudiane (que preferiu não informar seu sobrenome) ganha o sustento vendendo meias e roupas nas proximidades da Rodoviária do Plano Piloto. Neste agosto, o calor que sempre fez parte da rotina derrubou as vendas e tornou ainda mais difícil permanecer onde ela precisa estar. Aos 45 anos, ela acorda cedo, organiza as mercadorias, segue com o marido para a região em frente ao Conjunto Nacional e passa praticamente o dia inteiro em seu banco de plástico, sob o céu aberto.

As horas passam, o sol muda de posição, a temperatura sobe e a jornada continua. Para quem vive das vendas na rua, não existe a possibilidade simples de fechar a banca, procurar um lugar fresco e esperar o calor passar. É justamente quando o corpo pede sombra que ela precisa continuar trabalhando.

Claudiane fala pouco. Suas respostas são curtas, mas a rotina que descreve é longa. Nos 15 anos em que trabalha como ambulante, conta que nunca havia sentido um período de calor como o das últimas semanas.

O que antes fazia parte da dificuldade de vender na rua passou a pesar ainda mais. O cansaço ficou maior. O mal-estar apareceu com mais força. Ao fim do dia, não é apenas a exaustão de quem passou horas trabalhando; é a sensação de que o corpo está doente. “Agosto agora foi um mês da minha vida que eu mais senti o cansaço, uma dor física”, relata a trabalhadora.

Depois de tantas horas sob o sol, Claudiane chega ao fim do expediente sentindo no corpo o tempo que passou exposta.

Ela chega cedo porque sabe que precisa estar ali em um horário de maior movimentação. As meias precisam estar organizadas, as roupas à vista e as mercadorias prontas para quando alguém parar para olhá-las. O trabalho depende do movimento da rua.

E o calor também muda esse movimento.

Quando a temperatura sobe, as pessoas caminham mais depressa, procuram ambientes fechados e evitam permanecer na rua. Para Claudiane, isso significa menos gente parando diante das mercadorias e, consequentemente, menos vendas. “Isso atrapalha muito o fluxo das vendas. É difícil alguém querer parar nesse sol e olhar o que temos”, diz.

É uma conta difícil de fechar. O horário em que há mais pessoas circulando é também um dos mais quentes do dia. Se ela deixa o ponto para procurar uma sombra, pode perder uma venda. Se permanece, o corpo sente.

“Não consigo sair hora alguma de onde fico porque perco venda. Me protejo em um guarda-sol que levo às vezes e um banco para sentar. O horário em que vão me notar é quando tem movimento, e esse horário é o mais quente.”

O guarda-sol ajuda, mas não resolve. A sombra cobre parte do corpo, mas não transforma o lugar em um ambiente fresco. Depois de horas ali, o calor se intensifica.

Quando pensa no que poderia melhorar sua rotina, Claudiane não fala em algo distante. Ela imagina um lugar simples, mas que reúna duas coisas que hoje parecem difíceis de encontrar juntas: proteção solar e movimento.

“Seria interessante ter um local coberto, com estrutura maior, que tivesse movimento, algo que pegassem os ambulantes e levassem pra lá”, afirma.

Ficar no calor é estratégia, mas não o melhor cenário

A história de Claudiane não é isolada.

Em Ceilândia, próximo ao metrô, no centro da região administrativa, está Miguel Figueiredo, de 45 anos, que passa os dias tentando fazer o dinheiro acontecer. Há 14 anos, ele trabalha como ambulante. Vende acessórios, capinhas de celular e outros produtos pequenos que cabem na banca e podem ser levados com facilidade pelos clientes.

Miguel conhece a rua há quase tanto tempo quanto Claudiane – assim como as dificuldades de passar horas ali. “É horrível. Trabalhar no sol é difícil demais”, conta, enquanto continua trabalhando.

miguel figueiredo é ambulante há 14 anos e vende acessórios para celulares em ceilândia foto por thamires pinheiro
Miguel Figueiredo é ambulante há 14 anos e vende acessórios para celulares em Ceilândia

O calor, para ele, não é apenas uma sensação que aparece quando a temperatura sobe. É algo que acompanha a jornada, desde as primeiras horas até o momento de ir embora. A exposição também incomoda a pele e, com o passar do dia, mexe com o humor.

“A gente fica exposto a tudo. A pele vai sentindo e a pessoa também fica estressada, tanto pelo clima quanto pelas condições que vivemos”, explica.

Miguel tenta encontrar pequenas formas de aliviar o calor. As principais delas são o guarda-sol e a garrafa d’água.

Quando consegue, procura uma sombra. Nem sempre é possível. O ponto onde trabalha precisa ter circulação de pessoas e ao mesmo tempo, há regras para a ocupação dos espaços.

Quando algum colega não aparece, Miguel aproveita para ficar no lugar dele, onde encontra um pouco mais de proteção do sol. “Às vezes a gente pega uma sombra. Se algum dos meninos não vem, eu fico no local deles. É mais sombrinha lá, mais fresco.” A solução, porém, é provisória. Miguel precisa continuar perto de quem pode comprar.

Sobre uma estrutura melhor para os ambulantes, ele também pensa em uma feira. Mas não em qualquer lugar. “Tem que ser um lugar que tenha movimento. Não adianta colocar a gente em um canto onde as pessoas não conhecem”.

Ele aponta para a própria experiência. A região onde trabalha já é conhecida pelos clientes. As pessoas passam, veem as mercadorias e sabem onde encontrar os vendedores. “Aqui já é um ponto em que o pessoal passa, vê a gente e compra. Se for para mudar, tinha que ser para um lugar bom, com movimento, como uma feira conhecida.”

Para Miguel, a sombra precisa caber dentro da rotina de trabalho. Não adianta proteger o corpo e afastar os clientes.

É o mesmo dilema vivido por Claudiane. Os dois precisam escolher lugares onde as pessoas passem. E os locais de maior circulação não são confortáveis nem saudáveis para se permanecer durante horas.

O calor, assim, chega duas vezes. Primeiro no corpo e depois no bolso.

No fim do dia, há o cansaço acumulado, o suor, a sede e o desconforto. Mas também há a preocupação com aquilo que não foi vendido.

Temperaturas extremas e o risco à saúde

Neste ano, em Brasília, a combinação de temperaturas elevadas, baixa umidade e longos períodos de exposição ao sol tornou a rotina ainda mais difícil para quem trabalha ao ar livre.

Em 10 de agosto, o Distrito Federal registrou a temperatura mais alta do ano, de 36,1°C. A umidade relativa do ar chegou a 13%, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

A previsão para setembro é de atenção, com temperaturas cerca de 1,5°C acima da climatologia para o mês, acima dos 30°C, e umidade em níveis muito baixos.

Segundo o médico Lucas Albanaz, clínico geral e diretor clínico do Hospital Santa Lúcia do Gama, permanecer por horas em ambientes quentes faz o organismo trabalhar mais para controlar a própria temperatura.

O corpo aumenta o fluxo de sangue para a pele e utiliza o suor para tentar se resfriar. Quando a transpiração continua por muito tempo, há perda de água e sais minerais.

Com a desidratação, o coração precisa trabalhar mais para manter a circulação. O órgão fica acelerado e podem aparecer cansaço, fraqueza, tontura, palpitações e queda do desempenho físico e mental, além de dor de cabeça, náusea e câimbras.

Beber água regularmente, fazer pausas em locais protegidos, reduzir a exposição nos horários mais quentes e usar roupas leves e ventiladas estão entre as medidas importantes para mitigar os efeitos do calor extremo no corpo.

Adaptação das cidades

A discussão também passa pela forma como a cidade pode se adaptar ao calor cada vez mais intenso.

O ambientalista e advogado Raphael Sebba desenvolve um projeto de distribuição gratuita de protetor solar para trabalhadores que passam longos períodos nas ruas, como garis, ambulantes, entregadores e profissionais da construção civil.

Segundo ele, o item deve ser entendido como uma forma de proteção para quem está diariamente exposto ao sol, e não apenas como um produto de cuidado pessoal.

“Quando a gente defende protetor solar para essas pessoas, a gente está entendendo que protetor solar não é um equipamento cosmético, um capricho. Pelo contrário, em um contexto de onda de calor, é um elemento básico de segurança para a população.”

Para o ambientalista, trabalhadores que passam oito ou dez horas nas ruas também precisam de sombra, arborização e pontos de apoio. “O que a gente precisa é de uma cidade preparada para a mudança do clima, uma cidade preparada para as ondas de calor.”

É uma ideia que encontra eco no pedido de Claudiane e Miguel, por estruturas que aliviem o calor. Para eles, a proteção precisa fazer parte do próprio local de trabalho.

No dia seguinte, Claudiane estará novamente perto da Rodoviária do Plano Piloto. As meias estarão expostas. As roupas estarão organizadas. O guarda-sol poderá estar aberto. Miguel também estará com as capinhas e os acessórios à espera de quem passar em seu ponto, em Ceilândia.

A cidade vai continuar correndo ao redor deles. E eles continuarão esperando que alguém pare, olhe e compre – e também que o movimento não diminua. O sol continuará fazendo parte do expediente.

Depois de 15 anos na rua, Claudiane já conhece esse ritmo. Miguel, depois de 14, também. Eles sabem que o calor vai voltar.

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