No Eixo Monumental, a correria de quem tenta vender pipoca a cada sinal vermelho

Por Mateus Péres
Agência de Notícias CEUB

No cruzamento onde a cidade desacelera por alguns segundos, a vida acelera. No vermelho do semáforo, quando os carros param, é o momento em que Pedro Silva e Vitor Santos avançam. O sinal, para eles, não é pausa, é partida.

Entre buzinas, escapamentos e olhares apressados, os dois atravessam a pista com sacos de pipoca nas mãos e uma rotina que começa antes do sol esquentar o asfalto.

Em frente ao Conic, eles aprenderam a ler o tempo de outro jeito. Não pelos ponteiros do relógio, mas pela duração de um sinal fechado. É nesse intervalo curto que cabe quase tudo: a venda, a esperança, a frustração, o improviso.

“Eu já tenho 8 anos no sinal. Comecei com 17. Eu perdi minha mãe muito novo, não tive família pra me apoiar. Pra não cair pra vida errada, eu preferi vender aqui. Com isso aqui eu mantenho minha família, pago meu aluguel, cuido dos meus dois filhos. E vivo em paz”, conta Pedro.

A escolha de Pedro não romantiza a rua, ela revela um limite. Entre o que havia e o que poderia acontecer, ele encontrou na venda de pipoca uma linha de continuidade possível. Ao lado dele, Vitor soma menos tempo de asfalto, mas compartilha o mesmo ritmo.

Eles vêm do Ocidental, no entorno do Distrito Federal. A viagem até ali já é, por si só, uma primeira jornada, com o ônibus cheio e o corpo ainda acordando. O trabalho começa antes de chegar ao “ponto de vendas”, como chamam o semáforo, e só termina quando o corpo já não responde.

O dinheiro vem em pequenas quantidades, quase sempre contadas no fim do dia, depois de descontar o investimento. É uma conta que nunca fecha completamente.

“Dá pra fazer uns R$ 100, R$ 150 num dia bom. Mas isso depois de investir. A gente compra uns R$ 200 de mercadoria. Esse dinheiro que sobra é pra pagar aluguel, água, luz. É pra viver mesmo”, explica Vitor.
Viver, nesse caso, é insistir. Mesmo quando o corpo cansa antes da metade do turno, quando o sol castiga o asfalto, quando o movimento não ajuda. Há dias em que o esforço não acompanha o retorno, mas a ausência de trabalho seria ainda mais dura.

“Tem dia que faz R$ 20, R$ 30, mas é melhor do que ficar em casa. Só de ter vindo já ajuda. A gente agradece a Deus por mais um dia, só de estar respirando”, diz Pedro.

A rua também ensina sobre perdas. Algumas pequenas, outras que pesam. Calotes são comuns, quase esperados. Sacos de pipoca somem, clientes não pagam, o lucro evapora antes de existir.

“Tem vez que a gente compra R$ 200 de mercadoria e quando vai ver só caiu R$ 100. Muita gente pega e não paga. Na hora dá uma revolta, porque nós tá no sol, correndo. Mas a gente não pode fazer nada. Só segue. Deus sabe de tudo”, conta Vitor.

Ainda assim, eles falam mais das exceções que salvam do que das faltas que ferem. Há clientes que voltam, que ajudam, que conhecem pelo nome. Há gestos que quebram a lógica apressada da cidade.

“Tem muita gente boa. Tem gente que ajuda com Pix, com cesta básica, já teve quem ajudou com dinheiro pra pagar aluguel. A gente até manda foto pagando, pra mostrar. A gente só quer uma oportunidade, uma ajuda pra seguir”, diz Pedro.

Nem todo encontro, porém, é generoso. O preconceito aparece em formas diretas, às vezes violentas, quase sempre silenciosas para quem passa.

“Já teve cara que foi ignorante comigo, me deu um murro na mão. Depois quis dar dinheiro, mas eu não peguei. Aí uma pessoa de trás viu tudo, falou que era pra ver minha atitude e me deu R$ 20. A gente só quer respeito”, lembra Pedro.

O corpo sente o acúmulo dos dias

Ficar horas em pé, andando entre carros, desviando, insistindo. Tudo isso cobra um preço que não aparece nas contas.

Eles revezam o espaço com outros vendedores, organizando o tempo de cada um no mesmo ponto. Não há contrato, mas há acordo. Cada um sabe a hora de entrar e sair.

No fim da tarde, quando o fluxo começa a diminuir e o cansaço pesa mais do que a expectativa, eles encerram o dia como começaram: juntos, carregando o que restou.

“Quando fecha o Conic, onde compramos a mercadoria, a gente guarda as pipocas, lava os pés e vai embora. Pega o baú e no outro dia tá aí de novo, do mesmo jeito”, diz Vitor.

Mas, entre um dia e outro, existe o que sustenta além da rotina. Para Pedro, o futuro tem nome e idade.

“Eu tenho dois filhos, o Calebe e a Micaela. Pode faltar pra mim, mas pra eles não pode. Eu tô aqui todo dia por causa deles. É isso que me faz levantar cedo e vir pra cá”.
E é também nesse espaço, entre o que é e o que ainda pode ser, que nasce o sonho, discreto, mas firme.

“Meu maior sonho é abrir um negócio pra mim. Uma loja, uma distribuidora. Alguma coisa que dê pra girar dinheiro e botar minha família pra trabalhar comigo, viver melhor”, projeta.

No cruzamento, o ciclo continua. Vermelho, amarelo, verde. Para a cidade, é só trânsito. Para eles, é o intervalo exato entre continuar ou desistir. Até agora, continuar tem sido a única escolha possível.

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