“O esporte é um elemento transformador”, afirma deputado Julio Cesar

Em participação no programa JBR Entrevista, o deputado federal Júlio César Ribeiro (Republicanos) faz um balanço de sua trajetória política no Distrito Federal, com destaque para a sua atuação na Secretaria de Esporte e a criação de leis que fortaleceram o esporte amador e profissional na capital. Durante a conversa, o parlamentar também analisa o atual cenário eleitoral de 2026, detalha a robustez da chapa do partido Republicanos, defende seu posicionamento político à direita e tece duras críticas à interferência do Poder Judiciário nas decisões do Congresso Nacional.

Gostaria que o senhor se apresentasse ao nosso público

Eu sou o Julio Cesar Ribeiro. Atualmente, estou no meu terceiro mandato. Comecei minha trajetória aqui em Brasília em 2012, logo quando cheguei, assumindo o cargo de Secretário de Esporte. Fiquei dois anos na secretaria, elegi-me deputado distrital em 2014, deputado federal em 2018 e conquistei a reeleição em 2022. É um mandato trabalhado com várias bandeiras, mas as principais são a defesa da família — tanto que, como você mencionou, sou membro da Frente Parlamentar Evangélica e um cristão atuante — e o esporte. Essa bandeira tem norteado muitos dos meus trabalhos, mas também atuo firmemente na área social e na defesa dos idosos. É um mandato muito próximo da população.

Como foi o início do seu trabalho junto ao esporte amador e profissional do DF?

Olha, por conta dos meus princípios evangélicos — e todos sabem que também sou pastor —, uma das coisas que sempre aprendi na igreja é que só podemos ajudar as pessoas quando sentamos para ouvir as suas necessidades. Para orar por alguém, eu preciso saber quais são seus problemas e suas dificuldades. Foi exatamente esse método que implementei na política e na Secretaria de Esporte. Só posso ajudar se conhecer as lutas que a população enfrenta. Lá na secretaria, abri as portas do meu gabinete e passei a ouvir as pessoas. Percebi que, embora fosse a Secretaria de Esporte, o foco era quase que exclusivamente o futebol. Notei que Brasília tinha muitas outras modalidades. A partir daí, passei a incentivar e apoiar todos os esportes. O que mais me chamou a atenção, na época, foi a situação das artes marciais; havia muitos praticantes, mas eles não tinham onde competir. Acabei com as brigas institucionais entre federações e associações e comecei a valorizar o atleta.

E como se deu esse trabalho?

Graças a Deus, o esporte cresceu no Distrito Federal. Fortalecemos as federações e os atletas, e os legados apareceram. Hoje, olho para trás e vejo, por exemplo, o programa Compete Brasília, que iniciamos como uma ideia na secretaria e, depois, na Câmara Legislativa, transformei em lei. Aquele projeto, que antes atendia apenas cem atletas por ano, hoje atende mais de 5 mil anualmente. Foi um salto gigantesco. Também identifiquei a necessidade de suporte financeiro e investimos no Bolsa Atleta, estendendo o benefício para a categoria Paralímpica, que antes não existia.

Isso tudo ainda no âmbito distrital, não é?

Sim, tudo no âmbito distrital. Primeiro como secretário, depois como deputado distrital. Exatamente. E também, como distrital, notei que precisávamos de uma Lei de Incentivo ao Esporte local, pois só tínhamos a nacional, e as empresas de Brasília pagam ISS e ICMS aqui. Antes de deixar o mandato distrital em 2018, consegui aprovar essa lei. No entanto, fui para a Câmara Federal e a lei ficou quatro anos parada. Em 2022, após sermos reeleitos para deputado federal, fui convidado pelo governador Ibaneis Rocha para assumir novamente a Secretaria de Esporte em 2023. Foi quando consegui regulamentar a Lei de Incentivo ao Esporte. Hoje ela funciona plenamente. Recentemente, houve a publicação de mais um ciclo, e grandes empresas, como o BRB e a Neoenergia, já estão investindo, dando aos atletas e às instituições a possibilidade de fomento.

Qual a sua ligação com o Caio Bonfim, certo?

Lembro-me até hoje de quando o Caio, junto com seus pais, foi à minha sala na secretaria. Eles me disseram: “Secretário, se a secretaria nos ajudar, este menino ainda vai dar muitas alegrias para Brasília, vai estar em uma Olimpíada e ganhará mundiais”. Eu respondi que acreditava nele. Desde então, passamos a investir e, realmente, o Caio foi para as Olimpíadas, conquistou medalha e foi campeão mundial. Fico muito feliz ao olhar para trás e ver esse legado, além dos Centros Olímpicos. Eram apenas três na minha primeira gestão.

Queria que o senhor comentasse sobre a falta de vagas nos centro olímpicos do DF.

Eram três Centros Olímpicos quando assumimos; hoje são 12. Estamos com o 13º em andamento, na região do Paranoá, onde temos investido bastante, com previsão de entrega para o final deste ano. Uma das iniciativas que fiz questão de implementar nos Centros Olímpicos foi o projeto Futuro Campeão. Além de atender a comunidade em geral — jovens, crianças, adolescentes e idosos —, criei esse projeto especificamente para formar atletas de alto rendimento, dando-lhes condições de alçar voos maiores. Contratamos treinadores especializados nas modalidades, e não apenas professores de educação física.

Quais exemplos de sucesso o senhor pode dar?

Já colhemos frutos no atletismo e nos saltos ornamentais, com atletas que começaram no Futuro Campeão, chegaram aos Jogos Pan-Americanos e conquistaram medalhas. Também temos turmas de basquete e vôlei. Nesse projeto, oferecemos inclusive o transporte para os alunos, pois as vagas são limitadas para focar no alto rendimento. Ainda assim, a estrutura geral é pequena frente à demanda. Por isso criamos a Lei de Incentivo ao Esporte, pois víamos muitos atletas talentosos migrando para outros estados ou agremiações que ofereciam melhores condições. Estamos trabalhando para retê-los no Distrito Federal.

Na sua visão, qual é a principal lacuna e o que ainda pode ser feito para resgatar esses jovens por meio do esporte?

O esporte, do meu ponto de vista, é um elemento transformador fundamental na sociedade. É uma das ferramentas mais eficazes no combate à criminalidade e à ociosidade, afinal, como diz o ditado, “mente vazia é oficina do diabo”. Precisamos preencher o tempo e a mente desses jovens, e o esporte cumpre esse papel perfeitamente. É claro que o ideal seria o Estado alcançar todas essas pessoas diretamente, mas a pura realidade é que o poder público sozinho não consegue chegar a todos os cantos. Como agentes dessa transformação, buscamos alternativas. Por meio das minhas emendas parlamentares federais, ajudo atualmente cerca de 60 instituições sem fins lucrativos. O meu único pedido a elas é que criem e executem projetos esportivos — sejam de jiu-jítsu, taekwondo, karatê ou outras modalidades —, contratem professores e ofereçam aulas gratuitas para a comunidade. Além disso, exigimos que os jovens estejam matriculados e frequentando a escola. Unir educação e esporte é o caminho para formar cidadãos.

O senhor tem apoio?

É uma pena que, dos oito deputados federais da bancada do Distrito Federal, somente eu atue prioritariamente com essa bandeira. Essa é a realidade. Os outros parlamentares defendem outras pautas que, muitas vezes, não têm esse impacto social visível. Tenho conclamado também os deputados distritais a entrarem nessa causa, porque sozinho eu não consigo abraçar tudo.

O senhor tem uma parceria com o deputado distrital Martins Machado.

Exatamente. O Martins Machado é um dos que ajudam muito nessa frente. Porém, são 24 deputados distritais na Câmara Legislativa. Se tivéssemos mais parlamentares engajados nessa bandeira, certamente estaríamos construindo uma sociedade muito mais inclusiva e acolhedora. Acredito muito nisso.

Há um projeto de lei recente na Câmara dos Deputados, dado que o senhor faz parte da frente do esporte. Gostaria que explicasse do que ele trata.

São muitos projetos em andamento. Mas gostaria de destacar um de minha autoria que conseguimos aprovar no final do ano passado, referente à Lei de Incentivo ao Esporte Nacional. O governo federal atual havia encerrado o ciclo da lei anterior sob a justificativa de falta de recursos orçamentários. Diante disso, mobilizei alguns deputados e protocolamos um projeto em regime de urgência, pois corríamos o risco de ficar sem nenhuma lei de incentivo vigente para este ano. Unimos toda a casa legislativa e aprovamos uma nova legislação que torna a Lei de Incentivo ao Esporte perene. Conseguimos a aprovação na Câmara e no Senado, e a lei foi promulgada antes da virada do ano. Isso foi crucial porque milhares de projetos sociais em todo o Brasil são sustentados por esse mecanismo de dedução do Imposto de Renda.

Algum outro destaque?

Recentemente, também aprovamos uma legislação que traz maior segurança jurídica e estabilidade tributária para as federações e confederações esportivas, protegendo-as de perdas na reforma tributária. Além disso, fui o relator do projeto que cria a Universidade do Esporte. O objetivo é termos uma instituição de ensino superior voltada para o esporte, pois muitos dos nossos treinadores possuem uma vivência prática espetacular — como no caso dos mestres de jiu-jítsu —, mas carecem de fundamentação científica e técnica. A ciência aplicada ao esporte é legítima e eleva o nível dos profissionais. Esse projeto já foi aprovado na Câmara e agora está no Senado; estamos articulando para que seja pautado e votado o quanto antes.

O que o senhor achou da convocação do Neymar para a Seleção?

Olha, acredito que a torcida brasileira, de forma geral, desejava ver o Neymar convocado. Na verdade, a minha única crítica ao técnico da Seleção é que ele se esqueceu de convocar o Julio Cesar aqui. Brincadeiras à parte, o Neymar possui uma capacidade única de agregar o grupo e atrair a atenção positiva. É uma pena que ele ainda não esteja em suas plenas condições físicas, tanto que a comissão técnica indicou que ele talvez só atue no segundo tempo das partidas. Mesmo assim, a presença dele é importante para a união do elenco. Sinto falta também de mais atletas que atuam no futebol brasileiro na Seleção. Nossos talentos saem muito cedo para o exterior. Gostaria de ver mais jogadores do cenário nacional e, pessoalmente, mais atletas do Flamengo para fortalecer o time. Se o Arrascaeta fosse brasileiro, seria excelente.

Como o senhor e o partido Republicanos estão se preparando?

O Republicanos consolidou-se como um partido grande no cenário nacional, graças à excelente gestão do nosso presidente nacional, Marcos Pereira. Vale resgatar um breve histórico: quando ele assumiu a presidência em 2011, tínhamos apenas oito deputados federais. Com o passar das eleições, o partido cresceu de forma consistente: fomos para 21 federais em 2014, 31 em 2018 e atingimos 41 deputados federais em 2022. Além disso, elegemos o governador do maior estado do país, que é o Tarcísio de Freitas em São Paulo, e aumentamos expressivamente o número de prefeitos, deputados estaduais e vereadores.

E qual a sua projeção para este ano?

A nossa meta nacional para 2026 é ultrapassar a marca de 50 deputados federais. Para que esse objetivo seja alcançado, nossa meta aqui em Brasília é eleger dois ou três deputados federais. Temos nomes fortes no partido, como o deputado Fred Linhares, o meu próprio nome que está em evidência pelo trabalho realizado, além de outros quadros robustos na nominata. Somos um partido de centro-direita e de direita. Eu me posiciono firmemente à direita porque acredito que a nossa capital e o país necessitam de representantes com esses valores no Congresso Nacional. Na Câmara Legislativa do DF (CLDF), nossa nominata também está muito forte com nomes como Martins Machado, Rodrigo Delmasso, Doutora Jane, Bispo Renato, Fernando Fernandez e Renata d’Aguiar. Buscaremos eleger três deputados distritais. Estou muito otimista. Temos o Gustavo Rocha indicado para compor como vice na chapa da [governadora] Celina Leão. O Republicanos sairá das eleições de 2026 consideravelmente maior do que entrou.

Qual o futuro do Gustavo e do Republicanos, após o ex-governador Ibaneis ameaçar um racha com a governadora Celina?

Creio que esses acontecimentos são muito recentes e precisamos aguardar o desdobramento dos fatos. Em qualquer relacionamento político de longo prazo, existem divergências, discussões e momentos de tensão. No entanto, como ambos os grupos políticos caminham juntos há bastante tempo, acredito firmemente que haverá bom senso, que eles entrarão em um consenso e chegarão a um entendimento favorável. No momento atual, cabe-nos observar com cautela. É muito cedo para declarações contundentes ou qualquer tipo de precipitação. Este governo sempre pautou-se pautou pelo diálogo e pela convergência, e creio que o desfecho será o melhor para o Distrito Federal.

Como o senhor avalia o cenário de polarização do Congresso?

Eu confesso que imaginava que a polarização iria arrefecer para as próximas eleições, mas estava enganado. O embate ideológico entre direita e esquerda continua extremamente acentuado. O fato é que o Brasil, sob a gestão do atual governo federal de plantão, tem sofrido retrocessos graves. Tenho viajado pelo país no exercício do mandato e a percepção geral é de uma economia estagnada e de projetos que não avançam. O próprio Congresso Nacional reflete essa paralisia. Um exemplo claro e histórico disso foi a recente rejeição de uma indicação presidencial pelo parlamento — algo que não se via há muito tempo. Eu tenho 51 anos e nunca havia presenciado isso. É um claro termômetro da rejeição popular e parlamentar que a atual gestão enfrenta. Tenho trabalhado firmemente no âmbito federal para que possamos eleger um presidente de direita, pois a situação atual do país é insustentável. A polarização existe, mas estou muito confiante de que a população escolherá um rumo que atenda aos reais anseios do Brasil.

Como o senhor avalia a relação de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro na promoção do filme Dark Horse?

Entendo que precisamos aguardar a apuração rigorosa e a divulgação oficial de todos os fatos. O que as notícias preliminares indicam é que figuras de diferentes espectros políticos também mantiveram contatos nesse meio. Pessoalmente, não conheço o produtor mencionado, nunca o vi e não saberia identificá-lo se passasse por mim, exceto pelas imagens veiculadas na mídia. Minha postura é clara: todos aqueles que possuírem qualquer tipo de envolvimento que configure irregularidade devem vir a público e se explicar. Até o momento, o que foi divulgado aponta para tratativas de iniciativa estritamente privada para a realização de um filme privado. Devemos observar o desenrolar das investigações. Felizmente, não possuo nenhum tipo de relação ou contato com os envolvidos.

Qual é a opinião do senhor sobre a suspensão da chamada “Lei da Dosimetria” por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF)?

Vejo essa suspensão de forma muito negativa. Falamos constantemente sobre a harmonia e a independência entre os Poderes, mas, infelizmente, observamos episódios frequentes em que o Poder Judiciário interfere em prerrogativas que cabem exclusivamente ao Congresso Nacional. Se a matéria foi aprovada por maioria absoluta na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, o rito democrático deveria ser respeitado. Mesmo que tenha havido veto presidencial anterior, o Congresso exerceu sua prerrogativa constitucional de derrubá-lo. A lei deveria ser cumprida integralmente. Sou um defensor ferrenho da autonomia legislativa e considero que esse tipo de interferência judicial é prejudicial para a estabilidade institucional do país.

E como o senhor avalia essa disputa contínua entre os Três Poderes, após o 8 de janeiro?

Reitero que esse cenário decorre, em grande parte, de uma ingerência excessiva do Judiciário sobre o Legislativo. No entanto, o Congresso também compartilha dessa responsabilidade. Muitas vezes, partidos políticos de menor representação, ao perderem votações legítimas no plenário da Câmara ou do Senado, recorrem ao Judiciário para tentar reverter decisões democráticas. Nessa dinâmica de conflitos, não há um lado totalmente correto, e quem sai penalizado é o povo brasileiro. Enquanto os Poderes se desgastam em disputas de vaidade e território, as pautas estruturantes e urgentes para o desenvolvimento do país acabam ficando em segundo plano. É preciso estabelecer um limite institucional claro por meio de um pacto de respeito mútuo às competências de cada Poder. Atualmente, o Judiciário é quem mais precisa fazer um gesto de recuo, cessando as interferências nas decisões soberanas do Congresso Nacional.

Deixe comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos necessários são marcados com *.