Pesquisa indica que 14% dos eleitores do DF compartilha notícias com suspeita de serem falsas
A polarização política, que acontece em todo o Brasil, estimula a circulação da desinformação. Uma pesquisa realizada pelo ObservaDF revela que 14% dos eleitores da capital admitem repassar conteúdos sobre política, mesmo sob suspeita de serem falsos. Por outro lado, 70% dos votantes acusam a população geral de adotar esse tipo de conduta. Esse cenário reflete a preferência pela ideologia de um grupo, acima de fatos reais.
A ilusão de imunidade e a lógica partidária
Dados do levantamento do ObservaDF mostram uma contradição no comportamento do eleitorado local. Enquanto 56% dos entrevistados afirmam, nesta eleição, ter visto ou recebido notícias falsas sobre política. E 22% reconhecem já ter compartilhado uma “fake news” sem saber que era falsa.
A distância entre a acusação feita por outras pessoas e a confissão da própria conduta, caracteriza o fenômeno de percepção de imunidade pessoal. Essa é uma teoria psicológica e sociológica que descreve a ilusão do indivíduo, de que ele possui uma capacidade superior a dos demais para reconhecer boatos e resistir a “fake news”.
Filipe Vicentini Faeti, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Representação e Legitimidade Democrática e investigador pela Universidade Salamanca, indica a consolidação da polarização como motor do problema. De acordo, com o especialista, a lealdade a um partido se sobrepõe à checagem de fatos.
“Para essa parcela do eleitorado, o ganho político do próprio grupo tornou-se muito mais relevante do que a apuração dos fatos. Então o conteúdo é compartilhado não por ser necessariamente verdadeiro, mas pela sua utilidade prática em reforçar uma narrativa comum de grupo”, afirma Vicentini.
Plataformas digitais, algoritmos e viés de confirmação
A pesquisa também mapeou as mídias sociais, onde a desinformação ganha espaço, curtidas e comentários. Na liderança aparece o Instagram com 35%, a frente da TV Globo com 30%, Facebook com 14%, sites e blogs com 11% e do WhatsApp com 11%.
Na hora de fazer a checagem, 30% dos eleitores recorrem ao Google, 21% assistem ao noticiário e 20% consultam as redes sociais. Já as plataformas profissionais de verificação atraem a curiosidade e o interesse de apenas 8% dos entrevistados.

O professor Paulo Almeida, da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB) e coordenador do Projeto Conexão Responsa, avalia a influência das redes digitais nesse processo. Para o pesquisador, o sistema de recomendações aumenta o alcance de mensagens enganosas.
“Os algoritmos desempenham um papel central porque determinam, em grande medida, quais conteúdos ganham visibilidade nas plataformas. Redes como o Instagram priorizam sinais de engajamento, como compartilhamentos, comentários e tempo de visualização. O problema é que conteúdos sensacionalistas, polêmicos ou emocionalmente apelativos podem gerar muitas interações, independentemente de serem verdadeiros”, explica Almeida.
Para o docente a baixa adesão a ferramentas de checagem é um sintoma da necessidade de letramento informacional. “Muitas pessoas desconhecem as agências de checagem ou não desenvolveram o hábito de verificar informações antes de compartilhá-las. Há também um problema relacionado à velocidade das redes sociais: compartilhar uma publicação exige poucos segundos, enquanto verificar sua autenticidade demanda tempo, atenção e disposição”, pondera o professor.
Filipe Vicentini complementa ainda, que pertencer a uma ideologia aciona o viés de confirmação de veracidade no cérebro do eleitor. “O senso crítico é anulado porque o cérebro valida automaticamente as informações que atacam o adversário ou defendem um aliado, gerando uma barreira psicológica que faz com que a checagem dos fatos não afete o seu sistema de crenças”, detalha o investigador
Ameaça à democracia e aos consensos
Transformar a desinformação em tática de campanha eleitoral afeta permanentemente a estabilidade das eleições. Enviar deliberadamente dados incorretos resulta no desgaste da reputação dos adversários no Distrito Federal.
Paulo destaca a existência de uma distância entre a percepção de uma fraude e a responsabilidade individual. “As pessoas conseguem identificar comportamentos problemáticos nas redes sociais, mas nem sempre percebem que também podem contribuir para esse problema. É importante considerar que reconhecer uma informação suspeita não significa necessariamente compartilhá-la”, defende o especialista.
Já Filipe adverte sobre os prejuízos provocados a longo prazo por esse fenômeno na vida pública. “Esse comportamento degrada o debate público e substitui propósitos por ataques e destrói consenso mínimo sobre uma realidade política”, afirma Vicentini.
Para concluir, o analista alerta sobre a degradação da legitimidade democrática. “A escolha eleitoral passa a ser baseada em recortes, em simulações e mentiras, o que acaba enfraquecendo a confiança nas próprias instituições eleitorais e no próprio debate, porque acaba não gerando consenso”, finaliza Filipe Vicentini
Com dados alarmantes, como o de que apenas 8% dos eleitores do DF recorrem a plataformas profissionais de checagem de fatos, se torna necessário o incentivo a iniciativas de letramento informacional. Como o Projeto Conexão Responsa, da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (FAC/UnB), com apoio do Instituto Gabriel Gastal (IGG), que ensina educação midiática e cidadania digital. Além dessa iniciativa, também há outras agências consolidadas na verificação como o Projeto Comprova, o Aos Fatos e a Agência Lupa.