Quando perdemos sua companhia: Juscelino Kubitschek há 50 anos nos deixava

“Se me forem retirados os direitos políticos, como se anuncia em toda parte, não me intimidarei, não deixarei de lutar. Do ponto de vista de minha biografia, só terei do que me orgulhar desse ato”. Assim discursou Juscelino Kubitschek no Senado Federal em junho de 1964, era o prenúncio de uma perseguição política incansável que resultaria na sua morte em 22 de agosto de 1976. Um “acidente” que quase 50 anos depois seria oficialmente confirmado como, na realidade, um atentado  bem sucedido contra a vida de um dos maiores políticos da história do país.

Hoje, às vésperas do dia em que se completará 50 anos da morte de Kubitschek, o Jornal de Brasília remonta os acontecimentos que colocaram o ex-presidente na mira do regime militar e que culminaram na batida que paralisaria Brasília nos dias seguintes, naquilo que viria a ser a maior manifestação popular contra a ditadura na capital federal desde o início dos anos de chumbo. 

A versão oficial sobre a morte de JK sustentava que um ônibus da Viação Cometa teria colidido com o Opala em que estavam o ex-presidente e seu motorista, Geraldo Ribeiro, causando a batida fatal com um caminhão que vinha na pista oposta da Rodovia Presidente Dutra (BR-116). No entanto, o novo relatório sobre o caso, feito pela da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) e publicado em maio de 2026, confirmou aquilo que há muito já era especulado: JK foi vítima da ditadura militar brasileira.

O relatório também demonstra que o “acidente” foi apenas o elo final de uma extensa cadeia que foi estrategicamente montada pelo regime contra o ex-presidente. Apesar de ter se posicionado a favor da tomada do poder pelos militares, explica o professor de História Contemporânea da Universidade de Brasília (UnB), Virgílio Arraes, JK rapidamente se tornou alvo dos próprios militares, que descumpriram a promessa de uma transição democrática após a derrubada de Jango.

“Juscelino Kubitschek era digamos um político razoavelmente popular em alguns segmentos da sociedade, tanto que ele havia sido eleito senador por Goiás. Não é que ele fosse uma unanimidade, mas ele era um político forte eleitoralmente. Além de ter sido presidente, ele vinha de Minas Gerais, que era um dos dois maiores eleitorados. Então ele teria chances reais de vencer o pleito de 1965, até porque não havia segundo turno”, conta Arraes.

A percepção e discurso dos militares, descreve o relatório do Caso JK, era a de que Kubitschek seria um inimigo. O ex-presidente era tratado como agente da “infiltração comunista”, “varguista” e aliado de “Jango”. Além disso, para os militares, JK era candidato fortíssimo à próxima campanha presidencial, que ocorreria em 1965. “Juscelino Kubitschek venceria as eleições: era necessário que o golpismo o removesse da frente”, aponta o documento. Era considerado imbatível.

“Com a quebra da promessa do núcleo central do golpe, ele [JK] passa a ser oposição. Nesse sentido, ele se torna um adversário dada a projeção que ele tinha no país todo”, comenta o professor da UnB. Foi a partir dessa análise dos militares que a vida de JK passaria por diversas turbulências até o dia do “acidente”. O primeiro ato contra o ex-presidente foi justamente a cassação de seus direitos políticos, que ocorreu em 8 de junho de 1964. Foi também nessa ocasião, dias antes ao discursar no Senado, que JK mostrou que não abandonaria tão facilmente a vida política. 

“Repito, o golpe, que na minha pessoa de ex-chefe de Estado querem desfechar, atingirá a vida democrática, a vontade livre do povo. Não me estão ferindo pessoalmente, mas a todos que se julgam no direito de escolher a quem desejam escolher para presidir o seu destino”, bradou o ex-presidente na tribuna. A primeira etapa do plano militar para tirar de cena JK estava feita, o ex-presidente foi enfim cassado. Agora, a segunda entraria em ação: “a máquina de versões e mentiras”.

“Juscelino Kubitschek foi alvo de diversos Inquéritos Policial-Militares, uma indústria montada para produzir acusações de ‘comunismo’ e ‘corrupção’, espalhando uma nuvem de acusações sem possibilidade de defesa e abalando sua saúde física e mental. O alvo último era a eliminação de sua capacidade de resistência psíquica e física, por meio da humilhação pública e da pressão ininterrupta, sobre si, seus familiares, seu círculo de amizades e seus apoiadores políticos”, descreve o relatório. Essa máquina de mentiras e versões montada contra JK, continua o documento, atingiu a saúde do ex-presidente, pediu sua prisão preventiva, atuou estando ele no Brasil ou exilado e buscou atingi-lo na esfera tributária e patrimonial.

De acordo com Arraes, a ditadura militar mirava suas armas para qualquer pessoa que demonstrasse graus de oposição, sejam elas de esquerda ou direita. “Leonel Brizola, Miguel Arraes, João Goulart, Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek. Eu colocaria o assassinato de JK dentro desse contexto maior, ou seja, mesmo sendo de direita, ele se torna um opositor da ditadura. O regime então vai tentar detratar os seus adversários com com mentiras, com deturpação de informação, aquilo que hoje se chama de fake news”, diz o professor.

Porém, ao contrário do sucesso alcançado na primeira etapa dos planos dos militares para tirar Kubitschek de cena, cassando seus direitos políticos, a segunda estratégia não se mostrou igualmente eficaz. Segundo o relatório, João Baptista Figueiredo, homem da inteligência militar que viria a ser o chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) e depois presidente da república, vasculhou ele mesmo a vida de JK. “Nada encontrou que desabonasse sua honradez”, pontua o documento. Mas o ex-presidente ainda era um obstáculo para o estabelecimento do regime, agora ainda mais do que nunca porque havia voltado do exílio na Europa em 1967 para articular junto a Carlos Lacerda e outros políticos uma frente ampla para restaurar a democracia. No ano seguinte, em dezembro de 1968, viria o Ato Institucional N° 5 e com ele os anos de chumbo. As ameaças à vida de JK a partir de então se tornam mais frequentes.

Colisão fatal: a ditadura tira JK de cena

“Juscelino Kubitschek transformou-se em alvo central porque representava um caminho para o retorno à democracia. Para a ditadura brasileira isso era um pesadelo. Para alguns que almejavam a presidência do Brasil, como Figueiredo, um obstáculo insuportável”, aponta o relatório do Caso JK. Esse obstáculo, na visão do regime, precisaria sair de cena agora de fato. Em 1976, o regime chegou ao seu limite com o ex-presidente. Os últimos dias de Juscelino Kubitschek demonstram a vida de um animal político agindo, com discrição, silêncio e cuidado que o momento perigoso exigia, trabalhando, por onde encontra brechas, para que o país restaure o quadro de legalidade democrática, no qual ele buscaria ser candidato à presidência.

JK chegou em São Paulo no dia 20 de agosto de 1976, em viagem com Ulysses Guimarães e Franco Montoro, líderes da oposição parlamentar à ditadura. No dia 21 de agosto de 1976, encontrou-se com populares e ex-governadores. No dia 25, Kubitschek teria uma reunião com representantes do então presidente Ernesto Geisel. A reunião nunca aconteceu, porque no dia 22 de agosto na curva do KM 165 da Rodovia Presidente Dutra, o Brasil perderia um dos maiores estadistas de sua história após a colisão do Opala 1970 e o caminhão Scania-Vabis na pista oposta.

Naquele dia, um domingo, Kubitschek foi pego no início da Rodovia Dutra por seu motorista para irem ao Rio de Janeiro, onde o ex-presidente teria compromissos com empresários de Portugal e de onde voltaria para Brasília. No meio do trajeto de São Paulo para o Rio de Janeiro, JK e seu motorista fizeram uma parada no Hotel-Fazenda Villa-Forte, em Resende, próximo à Academia Militar das Agulhas Negras.

“Juscelino Kubitschek entrou no Hotel Villa-Forte, conversou com o Brigadeiro Newton Villa-Forte, seu motorista estranhou o carro, indagando se fora mexido por alguém, deixaram o hotel e morreram”, aponta o relatório. Minutos depois de deixarem o hotel, JK e Geraldo Ribeiro estavam mortos. Mortos após uma batida na qual o Opala disparou, da pista em sentido Rio, para a pista com sentido para São Paulo, sem sofrer qualquer colisão com o ônibus que se encontrava na mesma pista, e passou a operar uma rota certeira de colisão com o caminhão que vinha de longe, na outra pista. O caminhão, vendo a aproximação do Opala, tentou manobras evasivas; o Opala, pelo contrário, não buscou frenar ou desviar da colisão: executou firmemente a rota de colisão até sua finalização fatal.

O relatório do Caso JK mostra que o regime perseguiu o ex-presidente e fraudou sistemicamente as investigações sobre sua morte. Uma das principais evidências foi que, em uma parada durante a viagem, o motorista Geraldo Ribeiro questionou se alguém havia mexido no carro. Logo depois acontece a batida na qual o Opala pareceu falhar diante de um acidente iminente. Concluiu-se que a CEMDP possuía o poder-dever constitucional de declarar que a morte de JK foi não natural, violenta e causada pelo Estado no contexto do regime militar.

Choque, comoção e revolta

Naquele domingo, conta o jornalista e escritor Silvestre Gorgulho, o país acordou com a terrível notícia: morreu o ex-presidente Juscelino Kubitschek em um desastre automobilístico. “Nesse domingo, à noitinha, a comoção toma conta do País e Brasília mergulha numa angústia profunda. Em lágrimas, Brasília cria alma e toma as rédeas de seu destino”, comenta Gorgulho, que presenciou de perto o sentimento de tristeza e revolta que tomou conta da capital federal depois do “acidente”.

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Foto: Fernando Bizerra

“Na segunda-feira, 23, logo pela manhã, chega à capital o corpo de JK. Brasília vai para a rua. Os brasilienses pegam o caixão com o corpo de JK no aeroporto, seguem para a catedral e o levam até o cemitério. Nenhum palácio que JK construíra se propõe a abrigá-lo para as despedidas. Nem do Executivo, nem do Legislativo e nem do Judiciário. Quem abrigou JK foi a alma brasiliense. A saudade e as lágrimas marcam a manhã, a tarde e a noite. Brasília prende a respiração. O clima é de revolta, solitude, exaltação, glorificação e orfandade. Perdeu-se um herói. O velório e a despedida de JK fazem Brasília criar alma”, declara o jornalista.

Foi por causa da morte de Kubitschek, conta Gorgulho, que Brasília viu a maior manifestação popular de seus 16 anos em pleno regime militar. “Pela primeira vez o povo ocupa as ruas por 15 horas. Brasília se reinaugura. Os brasilienses se explodem em emoções e lágrimas para reverenciar o Fundador – presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. Nesse dia, sou testemunha de dois gestos inusitados. Primeiro, quando o povo tirou o esquife de JK do caminhão do Corpo de Bombeiros para levá-lo nos braços pela Esplanada e pela W3 até chegar ao Campo da Esperança. Cantando o Peixe Vivo”, relembra.

A música Peixe Vivo do folclore mineiro acompanhou momentos alegres e difíceis da vida pública de JK. Por onde passava, era saudado com a canção popular, que hoje é quase um hino da sua cidade natal, Diamantina (MG). A música ultrapassou o âmbito pessoal e passou a expressar sentimentos coletivos de saudade, pertencimento e necessidade de convivência. “A Minh‘alma chorou tanto, que de pranto está vazia desde que aqui fiquei, sem a sua companhia / Não há pranto sem saudade, nem amor sem alegria / É por isso que eu reclamo essa tua companhia / Como pode um peixe vivo viver fora da água fria? Como poderei viver sem a tua companhia?”. Com esse cântico, JK era recebido pelos brasilienses, na cidade que sempre sonhou.

O segundo momento daquele dia, continua Gorgulho, foi dentro do cemitério. “Acompanhei todo o trajeto e vi, na beirada do túmulo, um dos gestos mais emocionantes de minha vida. Era quase meia-noite. Luz, só dos refletores das tevês. Uma multidão se empurra para chegar mais próximo à cova. Mais de 50 policiais se dão as mãos, formando uma grande roda para cercar o túmulo de JK. O objetivo era evitar tumulto. Acompanhei tudo de pertinho, sem conseguir passar pelos PMs”, descreve.

Segundo Gorgulho, nesse momento um policial militar largou as mãos dos colegas, deu um passo à frente e começou a falar segurando o choro: “o presidente JK que trouxe meu pai para construir esta cidade. Eu vim junto com meu pai. JK será eterno porque mudou minha família, mudou o Brasil e eu tenho que agradecer aqui o meu amado presidente. Custe o que custar!”. A comoção foi generalizada. “Saí do cemitério à uma hora da manhã. Cansado e triste. Fui dormir com apenas um copo de leite. Mas me alimentei das palavras, da coragem e do destemor daquele soldado da PM”, diz Gorgulho.

A utopia que virou realidade

“Brasília era considerada uma utopia. Nós estamos acostumados a ver no mapa do Brasil um retângulo vermelho com seguidos dizeres: futura sede da capital federal. Ninguém mais dava fé àqueles dizeres que vinham desde a proclamação da república […] Quando me pus à disposição do público, o Toniquinho, como se chama o rapaz de Jataí, perguntou-me: ‘Vai, Vossa Excelência, construir a nova capital?’ Confesso que até aquela altura eu não havia pensado nesse assunto. Mas quando o Toniquinho me colocou o problema, eu pensei subitamente, não dei senão um ou dois segundos de espera e respondi prontamente: se a Constituição exige a construção da nova capital do Brasil, vou respeitá-la e construirei a nova capital do Brasil no Planalto Central”, declarou Juscelino Kubitschek após a concretização de um sonho que parecia impossível. 

Para Silvestre Gorgulho, JK comandou a maior “aventura formal” na ocupação de fronteiras e na integração do país. “Brasília poderia ter sido apenas uma promessa de campanha para não ser cumprida, como acontece na maioria das campanhas políticas. JK é diferente. E o desafio surgiu em 1955, numa praça pública de Jataí, interior de Goiás”, comenta o jornalista. “JK criou, de imediato, a 31ª meta de sua campanha. A meta síntese: a construção de Brasília e a transferência da Capital do Rio de Janeiro para o Planalto Central”, diz Gorgulho.

“É verdade, vou construir a nova capital. E assim o Brasil caminhará 50 anos em cinco de governo. E este passou a ser o slogan da minha campanha, que graças a Deus foi plenamente realizado, fazendo com que realmente o Brasil andasse em muitos setores, não apenas os 50 que eu anunciei, mas um ou dois séculos”, continuou JK em seu discurso.

De Minas, ao Rio a Brasília

A posse do ex-governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek, em 31 de janeiro de 1956, foi para Gorgulho uma data que transformou o Brasil em todas as dimensões: cultural, industrial, econômica e política. “Não foi fácil a chegada de JK ao Palácio do Catete. Ainda governador de Minas, Juscelino deixou claro sua intenção de disputar a Presidência da República pelo PSD. Houve muitas tratativas de lideranças nacionais e até de militares para demover JK de sua intenção. O próprio presidente da República, Café Filho (vice de Getúlio Vargas) e o governador de Pernambuco, Etelvino Lins, se articularam para evitar a candidatura de JK”, explica.

Segundo Gorgulho, JK sacudiu a vida administrativa, política e cultural do Brasil. “Seu governo plantou hidroelétricas, plantou estradas, plantou bom humor e plantou compromissos: cumpriu todas as 31 metas prometidas durante sua campanha à Presidência. JK plantou indústria automobilística e plantou magnanimidade, perdoando revoltosos de Jacareacanga e Aragarças e outros inimigos políticos.  JK plantou Brasília”.

Kubitschek foi eleito em 3 de outubro de 1955, tomou posse em 31 de janeiro de 1956. Em 18 de abril, 70 dias depois, assinou a Mensagem de Anápolis, encaminhando ao Congresso Nacional o Projeto de Lei nº 2.874/56, que tratava sobre a mudança da capital do Rio de Janeiro para Brasília. “No dia 18 de setembro, eu recebi o projeto e já sabendo que ele ia suscitar muitos problemas, o sancionei apenas na presença da minha família, da minha mulher e das minhas duas filhas na sala de jantar do Palácio das Laranjeiras no Rio de Janeiro. Lembro-me bem, as minhas filhas eram mocinhas ainda. Eu disse a elas: estou aqui assinando um dos atos que vai modificar a fisionomia política, social, econômica e mesmo geográfica do Brasil. Vamos construir a nova capital do Brasil”, disse Kubitschek.

A Lei determina a mudança da capital federal para o Planalto Central, cria a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) e fixa as bases para a construção da cidade, inaugurada em 21 de abril de 1960. “E foi assim, meu caro amigo, que nós começamos a grande epopeia que foi concluída em 3 anos e meio e que hoje está lá, desafiando todas as glórias, da coragem e do espírito de aventura do brasileiro”, bradou JK, imortalizando de vez seu nome na história do país.

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