Recorde de votos vem da periferia
Deputado distrital mais votado da história, Max Maciel (PSOL) foi reeleito, no último dia 4 de outubro com a impressionante marca de mais de 92 mil votos. Ao JBr Entrevista desta semana, o “deputado aba reta”, como ficou conhecido pelo adereço que não retira, mesmo quando está em plenário, contou como aprendeu a “escutar” e com isso conseguiu um feito há muito tempo não realizado por políticos: a conquista do voto jovem e a retomada do sentimento de pertencimento, o que também lhe rendeu o sufrágio dos pais deles.
Deputado, gostaria que o senhor se apresentasse mais uma vez aos brasilienses.
Eu sou o Max Maciel, nascido, criado e morador da Ceilândia. Fico mais no roteiro da Ceilândia Sul, Guariroba e Pôr do Sol, mas meu trabalho sempre se concentrou na Ceilândia Norte. Minha vida inteira foi lá, morando e trabalhando. Sou pedagogo de formação, especialista em Gestão de Políticas Públicas pela Universidade de Brasília (UnB) e estou como deputado distrital na Câmara Legislativa do DF (CLDF), reeleito com mais de 92 mil votos de confiança.
O senhor bateu o recorde de votos para a CLDF. Como foi essa caminhada até chegar essa votação histórica?
Confesso que não esperávamos esse montante; esperávamos ser reeleitos. Tínhamos muita confiança na reeleição pelo bom trabalho desempenhado na Câmara Legislativa, mas nossa história vem do movimento social e popular. Não acreditamos que um mandato ou a estrutura de um parlamentar seja um fim em si mesmo que vá resolver tudo. Há quem promova promessas inalcançáveis. Mantemos os pés no chão e entendemos que o mandato é um meio para disputar lutas: fiscalizar e melhorar a saúde, o transporte público, a segurança, a educação e os territórios.
De onde veio essa força?
Veio dos movimentos sociais e culturais, debatendo o direito à cidade e construindo espaços de cultura para a juventude. Depois de eleito, mostramos que a cidade pode ser diferente, tendo o transporte como eixo estruturante — pauta que muitos deixavam em segundo plano. Minha trajetória é ligada à juventude: fui membro do Conselho Nacional de Juventude, ajudei no Plano Nacional de Juventude e na formulação da política de atenção integral à saúde do adolescente e do jovem do Ministério da Saúde. Também passei pelos conselhos de juventude, cultura e segurança local.
Como surgiu a pauta do transporte?
Aprendi que a escuta é fundamental. Antes de ser eleito, no projeto “Debater nas Cidades”, o transporte aparecia de forma transversal. As pessoas não falavam diretamente sobre transporte, mas, ao sistematizarmos a escuta popular, percebíamos que a mobilidade urbana interligava o acesso à saúde, segurança, educação, trabalho e renda.
E como foi ao assumir o mandato?
Assumimos essa pauta em 2022 como principal bandeira de campanha, fomos eleitos e provamos sua relevância. Temos uma atuação muito presente nas sessões da CLDF e, nos dias sem sessão, estamos na rua, nas cidades, dialogando com os movimentos e com as famílias. Esse trabalho de corpo a corpo e escuta constante contribuiu imensamente para alcançarmos essa votação expressiva.
O senhor se tornou destaque nacional por suas atuações. Como surgiu a figura do “deputado de aba reta” e como foi o episódio da restrição ao uso do adereço?
Brinquei com quem sugeriu a restrição, pois eu não tiraria o boné. Fui eleito pelo povo, e o povo me identifica assim. O adereço não define a capacidade de formulação ou atuação política. O boné de aba reta reflete a cultura urbana de uma geração de jovens dos anos 90, periféricos, e representa a identidade desse território. Existe um preconceito estético. Se o Justin Bieber usar boné, tudo bem; mas quando é um jovem negro e periférico, cria-se um estereótipo e o colocam num padrão de suspeição. O boné não é indício de ato delituoso: é apenas estética e identidade, assim como o turbante, as tranças ou o cocar para os povos originários. Provamos nas urnas o peso dessa representatividade.
O senhor, por meio dos jovens, alcançou um público muito maior. Como foi esse movimento?
Foi muito interessante ver a bolha ser furada. Durante a campanha, recebemos áudios de mães dizendo que nos conheceram por causa dos filhos e passaram a nos acompanhar. Algumas me chamavam de “o moço do boné” e sentiram orgulho ao ver nossos enfrentamentos. Isso aumenta ainda mais a nossa responsabilidade. Se em 2022 fomos o terceiro mais votado, agora, como o mais votado da história do DF com quase 100 mil votos, nosso compromisso é manter o pé no chão. O boné virou uma marca registrada inegociável.
O senhor conquistou o voto de jovens da periferia que não se viam representados.
Eles olham para nós e se enxergam. Na periferia, é comum ver jovens sendo desestimulados em tudo: a empreender, a estudar, a fazer arte ou a acessar a universidade. Quando esse jovem vê alguém do seu território ocupando um espaço como a CLDF, percebe que também é possível. Rompemos barreiras e mostramos que a periferia pode ocupar qualquer lugar.
Como o senhor enxerga a disputa em torno dessa juventude?
É uma juventude que anseia por novidades e vivencia realidades diferentes das gerações anteriores. Antes, o foco era ter um emprego de carteira assinada por décadas. Hoje, o jovem descobriu que pode viver a cidade, frequentar museus, cinemas e produzir cultura. Nosso diálogo se conecta a essa busca. E o recado que deixamos é que não existe cadeira vazia: se você não se posicionar na política, outro ocupará o seu lugar.
Como vocês cativam e mantêm esse diálogo com a juventude?
Com comunicação direta. Mantemos a linguagem autêntica da juventude e da periferia, enquanto adaptamos a mensagem para que as mães e outros públicos também compreendam nossas pautas. O objetivo é demonstrar que a periferia tem potencial e voz. Em 2022 dissemos que a periferia era o centro; agora afirmamos que ela é a solução. Para resolver problemas como o transporte público, basta escutar quem vive nos territórios. Não há fórmula mágica: trata-se de escuta ativa, sem julgamentos morais, compreendendo as demandas da população.
O senhor foi convocado para atuar na campanha do presidente Lula. Como será esse apoio?
O PSOL foi chamado para manter a militância mobilizada nas ruas e identificar os pontos de avanço tanto para o governo local quanto para o cenário nacional. Compartilhamos o nosso modelo de atuação que integra redes sociais e presença territorial para dialogar com indecisos e apresentar propostas.
E em relação aos problemas enfrentados pelo Distrito Federal?
A população reclama da saúde, da educação precarizada e do trânsito travado. A cidade sofre com ilhas de calor e falta de infraestrutura nos territórios periféricos. É preciso mostrar a responsabilidade das gestões que conduziram esses setores nos últimos anos, além de ressaltar que Brasília precisa integrar o Entorno, de onde vêm mais de 400 mil pessoas diariamente para trabalhar no DF.
O que já mudou no transporte para a população e quais são os próximos passos?
Conseguimos avanços concretos, como a instalação de novos abrigos e paradas de ônibus em pontos estratégicos e a readequação de horários e itinerários com base no fluxo real dos passageiros. A gratuidade aos domingos e feriados trouxe impacto direto na mobilidade. Para o próximo mandato, pretendemos focar no fortalecimento e expansão do Metrô-DF e no escalonamento da tarifa zero para os sábados e datas comemorativas, sempre de forma planejada para evitar sobrecarga no sistema.
Quais são os outros compromissos para o segundo mandato?
Daremos grande atenção ao meio ambiente, com planos de arborização para diminuir ilhas de calor na Ceilândia, Sol Nascente e Riacho Fundo, igualando o cuidado dispensado ao Plano Piloto. Também vamos atuar na implementação de parques urbanos mapeados, garantindo opções de lazer e convivência para as famílias das periferias através de recursos do Ibram e da Terracap.
Com a votação expressiva que teve, o senhor pretende pleitear a presidência ou cargo na Mesa Diretora da CLDF?
Essa discussão será feita no âmbito do bloco PSOL/PSB. Meu perfil é de estar nas ruas e no trabalho de campo, mas as articulações internas da Casa serão debatidas coletivamente a partir de novembro, buscando o melhor arranjo para o DF.
Qual é a perspectiva e o futuro do PSOL no Distrito Federal a médio e longo prazo?
O PSOL tem um projeto estruturado para o DF. Queremos continuar ampliando nossas bancadas distrital e federal e disputar os debates majoritários, apresentando propostas sólidas para a cidade em conjunto com as forças de esquerda.
