Criança de 11 anos é internada em estado grave após ser picada por escorpião
Uma menina de 11 anos foi internada em estado grave na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Santa Lúcia Norte, na Asa Norte, após ser picada por um escorpião. O caso aconteceu na última sexta-feira (12), quando Valentina Nobre Lima se preparava para ir à escola e foi atacada pelo aracnídeo no momento em que calçou o tênis.
Em entrevista ao Jornal de Brasília, Eduarda Nobre, irmã da vítima, contou que inicialmente, a pequena não percebeu a presença do animal dentro do calçado. “Ela colocou o tênis normalmente e não sentiu nada. Conforme foi andando, conseguiu dar cerca de dez passos. Quando chegou à sala, começou a sentir uma dor muito forte e gritou. Ela chorava e se contorcia de dor”, contou a Eduarda.
A picada ocorreu no segundo dedo do pé da menina. Diante da situação, a mãe buscou ajuda imediata e levou a filha ao posto do Corpo de Bombeiros do Núcleo Bandeirante. A família relata, porém, que não houve atendimento adequado no local. “Eles disseram que não havia viatura disponível e sequer retiraram minha irmã do carro para avaliá-la. Só demonstraram interesse em agir quando perceberam que meu pai é policial militar”, afirmou Eduarda.
O pai da criança deixou o trabalho e a levou ao Hospital Regional do Guará, onde ela recebeu atendimento de urgência. De acordo com a família, foram administradas seis ampolas de soro antiescorpiônico. “Os profissionais do Hospital do Guará foram enviados por anjos. O atendimento foi excelente, mas ela precisou de ir para a UTI, então a levamos para o Hospital Santa Lúcia Norte, onde Valentina permanece internada”, contou a irmã da criança, informando ainda que ela está sedada, entubada e em coma induzido.

O caso de Valentina não é isolado. No mês passado, uma criança de um ano também precisou ser entubada após ser picada por um escorpião. O caso aconteceu no dia 24 de maio em São Sebastião, enquanto a criança dormia com a mãe, que também foi picada. Após o acidente, as duas foram atendidas na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de São Sebastião. A criança ficou em estado grave e precisou ser transferida de helicóptero para a UTI do Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib), na Asa Sul.
Segundo informações da Secretária de Saúde, o Distrito Federal registrou 4.640 acidentes por escorpião ao longo de 2025. Considerando o período de janeiro a 13 de junho de 2025, foram notificados 1.855 casos. No mesmo período de 2026, até 13 de junho, foram registrados 1.974 acidentes. Somente no mês de agosto de 2025, ocorreram 389 acidentes envolvendo escorpiões.
Se comparar os registros do período de janeiro a 13 de junho de 2025 com o mesmo período de 2026, observa-se um aumento de 6,41% no número de acidentes. A distribuição dos casos entre as regiões administrativas pode variar ao longo dos anos e dos meses, em função das condições ambientais e climáticas favoráveis à ocorrência desses acidentes.
Segundo a pasta, em 2026, até a presente data, as regiões com maior incidência de casos são Estrutural, São Sebastião e Planaltina. Em relação à gravidade, até 13 de junho de 2026 foram registrados 32 casos classificados como graves, o que corresponde a 1,6% do total de acidentes notificados no período.
A Secretária informa ainda que, conforme as diretrizes mais recentes do Ministério da Saúde, a administração de soro antiescorpiônico depende da classificação de gravidade. Considerando casos leves (a maioria das ocorrências) nesse grupo, o tratamento é focado apenas no alívio da dor, com analgésicos, anestésicos locais e compressas mornas.
“O soro é indicado somente para crianças, idosos ou adultos extremamente debilitados e/ou desnutridos. De qualquer forma, todas as vítimas devem ser levadas ao serviço de saúde mais próximo para receber tratamento sintomático e ser avaliada a necessidade de administração ou não do soro específico”, disse a Secretária.
O que fazer caso seja picado por um escorpião
Com o aumento dos registros de acidentes envolvendo escorpiões, especialistas alertam para a importância do atendimento médico imediato, especialmente quando a vítima é uma criança. Segundo a Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF), a orientação inicial é lavar o local da picada com água e sabão, manter o membro afetado elevado e procurar assistência médica o mais rápido possível.
Também é recomendado informar, se possível, qual animal causou o acidente. Caso seja seguro, uma fotografia do escorpião pode auxiliar na identificação da espécie e contribuir para a definição do tratamento mais adequado.
De acordo com o médico infectologista André Peluso Nogueira, crianças com menos de 10 anos estão entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos do veneno. “As crianças, especialmente as menores de 10 anos, são mais vulneráveis às picadas de escorpião, porque recebem proporcionalmente uma quantidade maior de veneno em relação ao peso corporal. Isso faz com que os efeitos tóxicos sejam mais intensos e evoluam mais rapidamente”, explica.
O especialista destaca que sinais como suor excessivo, náuseas, vômitos repetidos, salivação intensa, tremores, sonolência, agitação e alterações na pressão arterial ou nos batimentos cardíacos exigem atenção imediata. “Em crianças, os vômitos repetidos após a picada de escorpião são um importante sinal de alerta e devem ser levados em consideração. A criança deve ser encaminhada o mais rápido possível ao serviço de saúde”, alerta.
Entre as complicações mais graves estão problemas cardiovasculares e respiratórios. Segundo Nogueira, a avaliação médica precoce é fundamental para identificar alterações que podem colocar a vida da vítima em risco. “Uma das principais complicações que deve ser avaliada precocemente são as alterações cardiovasculares. A rapidez no atendimento e a identificação precoce dos sintomas de alerta é o que vai salvar vidas”, afirma o médico.
O infectologista reforça que medidas caseiras não devem ser adotadas. “Não se deve fazer torniquetes ou garrotes, cortar, furar, espremer ou tentar sugar o veneno. Essas medidas não têm eficácia comprovada e podem atrasar o atendimento”, ressalta. Ele também recomenda evitar a aplicação de substâncias como pó de café, álcool, querosene, ervas ou pomadas sem orientação médica.
O tratamento específico para os casos de envenenamento por escorpião é o soro antiescorpiônico. Conforme o médico, a eficácia é maior quando a aplicação ocorre rapidamente após o acidente. “Esse soro é mais eficaz quando aplicado rapidamente depois da picada, pois ajuda a minimizar os efeitos do veneno. Nos casos moderados e graves, especialmente em crianças, a administração precoce diminui significativamente os riscos de complicações e de mortalidade”, explica.
Por isso, mesmo quando os sintomas se restringem à dor local, a recomendação é que as crianças sejam avaliadas por profissionais de saúde. “Toda criança picada por escorpião deve ser avaliada rapidamente em um serviço de saúde especializado, mesmo que apresente apenas dor no local da picada”, enfatiza o infectologista.
Onde buscar ajuda
Em situações de emergência, a população deve acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), pelo telefone 192, ou o Corpo de Bombeiros Militar, pelo número 193.
A SES-DF também disponibiliza atendimento especializado por meio do Centro de Informação e Assistência Toxicológica (Ciatox), que funciona 24 horas por dia pelos telefones 0800-644-6774 e (61) 99288-9358.
Na rede pública do Distrito Federal, o soro antiescorpiônico está disponível no Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib), Hospital Regional da Asa Norte (Hran), Hospital Regional do Guará (HRGu), Hospital Regional de Brazlândia (HRBz), Hospital da Região Leste (Paranoá), Hospital Regional de Ceilândia (HRC), Hospital Regional do Gama (HRG), Hospital Regional de Santa Maria (HRSM), Hospital Regional de Planaltina (HRPl), Hospital Regional de Sobradinho (HRS) e Hospital Regional de Taguatinga (HRT).