Pedalar no DF ainda é seguro? Mortes de ciclistas acendem alerta
Pedalar pelo Distrito Federal faz parte da rotina de milhares de pessoas que usam a bicicleta para trabalhar, praticar esporte ou se deslocar. Apesar da expansão da malha cicloviária, falhas de conexão, travessias perigosas, problemas de manutenção e o comportamento de motoristas ainda aumentam os riscos para quem está sobre duas rodas.
O alerta ganha força nesta quarta-feira (19), Dia Nacional do Ciclista. A data foi instituída pela Lei Federal nº 13.508/2017, em homenagem a Pedro Davison, ciclista de 25 anos morto após ser atropelado no Eixão Sul, em Brasília, em 2006. Quase duas décadas depois, o caso segue como símbolo da luta por mais segurança no trânsito.
Entre 2022 e 2025, 60 ciclistas morreram em ocorrências de trânsito no DF, segundo o Detran-DF. Em 2025, foram 17 mortes, uma a menos que no ano anterior. Apesar da redução, o número mantém o alerta sobre a vulnerabilidade dos ciclistas em vias de alta velocidade e nos pontos de conflito com veículos.
Para Adriana Souza, doutora em Transportes pela Universidade de Brasília (UnB) e especialista em Mobilidade Urbana, não é possível classificar o ato de pedalar no DF simplesmente como seguro ou inseguro. Segundo ela, a experiência varia de acordo com o horário, a estrutura disponível e o trajeto realizado.
“Ser ciclista na capital do Brasil carrega a sua vulnerabilidade. O risco varia muito conforme a existência de infraestrutura cicloviária. A realidade das ruas mostra que Brasília é um pouco hostil com os ciclistas”, afirma.
A especialista aponta que velocidades elevadas em diversas vias urbanas e rodovias aumentam a exposição de quem está sobre duas rodas. Além disso, conflitos com carros, ônibus e caminhões podem ocorrer quando os motoristas não dão preferência ou não respeitam o espaço destinado aos ciclistas.
Embora o Distrito Federal tenha a segunda maior rede cicloviária do país, Adriana ressalta que a extensão da malha não é suficiente para garantir deslocamentos seguros. “Uma rede cicloviária extensa, por si só, não significa necessariamente uma rede segura”, avalia.
Segundo ela, entre os problemas encontrados estão interrupções na infraestrutura, dificuldades nas travessias, iluminação inadequada, falta ou apagamento de sinalização, manutenção do pavimento e conflitos nos cruzamentos. “Os ciclistas encontram dificuldades nas interrupções da infraestrutura, nas travessias, iluminação, manutenção do pavimento, sinalizações inexistentes ou apagadas, nos conflitos com os veículos e nas altas velocidades praticadas”, explica.
A avaliação é que o poder público precisa mudar a lógica de expansão da malha para priorizar a eficiência da rede existente. Para Adriana, o objetivo deve ser transformar as ciclovias em um sistema “contínuo, conectado, seguro e integrado à cidade e ao transporte público”.
A experiência de quem pedala diariamente ajuda a mostrar como as falhas de infraestrutura interferem na rotina. Aos 48 anos, o soldador Júlio César Silva dos Santos percorre cerca de seis quilômetros entre o P Norte e o P Sul para chegar ao trabalho.

Pela manhã, quando saí de casa por volta das 5h40, ele considera o trajeto relativamente tranquilo devido ao menor movimento de veículos. O problema aparece no fim do expediente, quando precisa enfrentar o trânsito mais intenso. “Na parte da manhã, quando eu venho trabalhar, é tranquilo. Mas a volta para casa é um pouco complicada pelo fato de não ter ciclovia do P Sul ao P Norte. Aí eu tenho que encarar o trânsito”, relata.
Júlio afirma que a maioria dos motoristas respeita os ciclistas, mas diz que alguns comportamentos tornam o percurso mais perigoso. “A grande minoria gosta de tirar fino, gosta de xingar, porque vê um cara em cima de uma bike 5h15 da tarde, 5h30 e acha que é vagabundo. Mal sabe ele que a pessoa está saindo do serviço e indo para casa”, conta.

Mesmo diante das dificuldades, ele não abre mão da bicicleta. O ciclismo, para Júlio, ultrapassa a função de meio de transporte e se transformou em uma forma de conhecer o país. Ele já realizou viagens de Brasília a Piraí do Sul, no Paraná, terminando o percurso em Aparecida, em São Paulo, e também de Brasília a Juazeiro do Norte, no Ceará.
Para quem perdeu um familiar em um acidente, a discussão sobre segurança viária deixa de ser apenas estatística. Regina Machado perdeu a filha, Amanda Machado Suzane, aos 25 anos, em novembro de 2024. Nutricionista do Hospital Santa Lúcia Norte, Amanda morreu enquanto pedalava pela EPTG, em um domingo à noite. Segundo a mãe, testemunhas relataram que a pista estava livre no momento em que a jovem iniciou a travessia.

“Eu realmente perdi uma filha pedalando na EPTG, num domingo à noite. A testemunha que estava com ela disse que a pista estava livre, não vinha carro nenhum. Ela foi atravessar e, de repente, saiu um carro em alta velocidade, a 140 por hora, e atropelou ela. Não pisou nem no freio”, relata Regina.
Para Raphael Barros Dorneles, coordenador-geral da ONG Rodas da Paz, a segurança viária deve partir do princípio de que os erros humanos são inevitáveis e que a estrutura das cidades precisa impedir que esses erros resultem em mortes. “Nós entendemos que nenhuma morte no trânsito é aceitável, então a estrutura viária deve ser desenhada para não permitir que os erros humanos que acontecerão gerem sinistros”, afirma.
Na avaliação dele, Brasília ainda não aplica plenamente essa lógica. Dorneles cita as altas velocidades, os cruzamentos entre carros e bicicletas e a falta de respeito à prioridade dos ciclistas como fatores que aumentam o risco.
“As velocidades continuam altas em nossa cidade. Continua uma prioridade ao carro, e precisamos rever essa situação”, diz. Segundo o coordenador da organização, alguns pontos do DF apresentam histórico elevado de acidentes, como a Saída Norte e o Lago Sul. Ele relaciona o problema à velocidade das vias e à forma como a infraestrutura cicloviária foi implementada.
“Existem pontos que infelizmente têm histórico elevado de mortes, como a Saída Norte e o Lago Sul. Isso se dá pela alta velocidade das vias e pela estrutura cicloviária mal implementada”, afirma.
Dorneles também cita situações recentes em Águas Claras, onde, segundo ele, veículos entram em retornos sem verificar a presença de bicicletas nas ciclofaixas. “O respeito à vida do ciclista precisa ser reforçado a todo momento”, defende. Para a Rodas da Paz, simplesmente afastar a bicicleta dos carros não resolve todos os problemas. Os cruzamentos continuam sendo pontos críticos e precisam ser projetados para reduzir a possibilidade de acidentes.
“A estrutura cicloviária traz segurança porque afasta o ciclista da ameaça do carro, mas é impossível o trajeto todo ser assim. Em todos os locais que a bicicleta cruzar com o carro, tem que ter uma engenharia que diminua o risco de sinistro e que dê prioridade à bicicleta”, explica Dorneles.
Ele defende que a prioridade prevista no Código de Trânsito Brasileiro seja efetivamente aplicada. “Sem a prioridade, vamos contra a definição do artigo 29 do CTB, que dá prioridade aos modais ativos, e nunca estimularemos de fato o uso da bicicleta na nossa cidade”, argumenta.
A entidade também defende a adoção do conceito de Visão Zero, segundo o qual nenhuma morte no trânsito é aceitável e a infraestrutura deve ser planejada para reduzir as consequências dos erros humanos. “Nós precisamos repensar a forma como abordamos a cidade. Temos que mudar as velocidades e mudar as prioridades, que observamos claramente na hora dos cruzamentos entre bicicletas e carros”, afirma.
O próprio histórico da capital mostra avanços na estrutura destinada às bicicletas. Segundo Dorneles, nos mais de 20 anos de atuação da Rodas da Paz, Brasília passou por mudanças significativas tanto na quantidade de ciclovias quanto na redução das mortes de ciclistas. “Brasília teve mudanças drásticas, tanto na questão do número de mortes de ciclistas, que baixou consideravelmente, quanto no aumento da estrutura cicloviária da cidade”, afirma.
O problema, segundo ele, é que essa evolução perdeu força nos últimos anos. “De uns anos para cá, nós temos uma estabilização do número de mortes, algo em torno de 20 ou pouco menos. E as velocidades continuam altas em nossa cidade. Continua uma prioridade ao carro”, avalia.