Ricardo Cappelli é o primeiro sabatinado do JBr Eleições
O Jornal de Brasília deu início, ontem, à série de sabatinas com os candidatos ao Governo do Distrito Federal; O primeiro convidado do JBr Eleições foi Ricardo Cappelli (PSB), que ganhou notoriedade ao assumir o comando da segurança pública do DF após os atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023. Durante o encontro, o candidato falou sobre suas propostas para as diversas áreas, entre elas a própria segurança, saúde e educação, além de políticas para a melhoria da economia distrital.
O senhor ganhou notoriedade após o 8 de janeiro, mas não há nenhum outro feito seu no DF. O que lhe credencia para governar o Palácio do Buriti?
Eu tenho 26 anos de experiência como gestor público. Já fui secretário municipal, secretário estadual, secretário nacional. Fui ministro interino do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) e ministro em exercício do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). Fui secretário-executivo, fui interventor federal. Então veja: eu tenho muita experiência como gestor público. Eu sou o único destes que estão aí que nunca fui candidato a nada no Distrito Federal. Eu fui o interventor federal na Segurança Pública. Quando o Distrito Federal precisou de alguém para botar ordem, o presidente Lula me nomeou. Eu assumi a Segurança Pública e botei ordem no dia 8 de janeiro de 2023. Fui interventor durante todo aquele mês.
E qual foi a experiência que o senhor acumulou?
Quando eu decidi ser candidato a governador do Distrito Federal, fiz uma coisa que jamais qualquer político fez. Eu falei: “Olha, se eu quero ser governador, tenho que conhecer profundamente a cidade aqui, o Distrito Federal”. Eu estou, desde janeiro do ano passado — desde janeiro de 2025 —, há 18 meses, fazendo isso: todo mês saio de casa por uma semana e vou morar em uma cidade diferente do Distrito Federal. Morar onde? Na casa das pessoas que gentilmente me receberam. Dormir um dia na casa de um, dois dias na casa de outro. Nessa semana em que fico nas cidades, ando de ônibus e de metrô. Ando de transporte público para conhecer a realidade da mobilidade. De forma que eu te digo: pode ter alguém hoje que conheça o Distrito Federal tanto quanto eu, mas mais do que eu não tem. Eu já visitei todas as UPAs, já visitei todos os hospitais. Eu sei a dor. Eu chego na UPA e converso com as pessoas; sei a dor de quem está aguardando para fazer uma cirurgia há dois, três anos. Hoje nós temos 31 mil pessoas na fila das cirurgias. O DF real não é o DF do cartão-postal da Ponte JK, da Praça dos Três Poderes ou da Torre de TV. O DF real está em quem pega ônibus de manhã cedo lá no Arapoanga para chegar no Plano Piloto para trabalhar e leva duas horas, duas horas e meia. Isso não é razoável.
E o que o senhor propõe?
Por isso, lancei o programa Fila Zero: nós vamos zerar a fila de cirurgias, consultas e exames no Distrito Federal. Por isso também lancei o programa no transporte queprevê no máximo até uma hora da porta de casa à porta do trabalho. Dá para fazer, dá sim. Por que lá no Arapoanga, de Planaltina, de Sobradinho, não tem ônibus expresso com faixa exclusiva ou BRT? Tem espaço? Dá para ter.
O que o senhor fará em relação à moradia?
Sei a agonia de quem mora no Sol Nascente, de quem mora em São Sebastião, de quem mora no Jardim Botânico e não consegue ter a escritura da sua casa. Apenas 32,6% dos imóveis do Distrito Federal são próprios e regularizados; o restante não tem escritura, são famílias vivendo na insegurança. Eu lancei um programa chamado A Casa é Sua: vamos dar a escritura pelo menor valor legal possível para todo mundo. Eu sei a agonia de quem está com medo de sair de casa hoje para ir à farmácia na esquina à noite, porque a violência explodiu e a população de rua explodiu. Hoje nós temos a maior população em situação de rua da história do Distrito Federal, mais de 3 mil pessoas nessa condição.
O senhor tem ex-governadores em sua chapa que não se reelegeram após quatros anos. O que o senhor não fará em sua gestão?
Ora, tenho muito orgulho de ter no meu partido duas pessoas como Cristovam Buarque e Rodrigo Rollemberg. Se você pegar a história dos governadores do Distrito Federal, tem dois que nunca foram presos e não respondem a processo nenhum: Cristovam Buarque e Rodrigo Rollemberg. São dois ex-governadores ficha-limpa, com uma história reta. O Cristovam Buarque, por exemplo, criou o Saúde em Casa. As pessoas lembram do programa, de quando os médicos e enfermeiros iam às casas das pessoas — programa que depois virou o Saúde da Família. O Cristovam criou o Bolsa Escola, que depois virou o Bolsa Família. A faixa de pedestres aqui, que é um orgulho do Distrito Federal e um exemplo para o Brasil, quem criou foi o Cristovam Buarque. O Rollemberg assumiu o governo com uma dívida de R$ 5 bilhões, um rombo nas contas. Ele passou os quatro anos arrumando as contas. Mesmo assim, ainda conseguiu fazer muita coisa: o Hospital da Criança, quem inaugurou foi Rodrigo Rollemberg. E ele não responde a um processo. Teve dificuldades? Teve, porque pegou um governo quebrado. Teve muita dificuldade. Agora, tenho orgulho de ter, no meu partido, dois ex-governadores ficha-limpa. São os dois únicos do Distrito Federal.
O senhor é suspeito de ter usado a estrutura da ABDI para autopromoção eleitoral. Como se defende dessa situação?
Olha, quem me acusou: primeiro, foram duas acusações das quais me orgulho muito. A primeira foi da Damares Alves (senadora pelo Republicanos-DF), que é de extrema-direita e faz oposição. Acho, inclusive, que a Damares está arrependida de ter feito. Cruzei com ela há 15 dias no aeroporto de Congonhas. Ela passou por mim, me cutucou, virou para a frente, virou para trás e falou: “Capelli, dá um sorriso para mim”. E a outra denúncia foi feita pelo MDB. Veja você: Ibaneis Rocha. Você acha que Ibaneis Rocha tem autoridade? Ele está envolvido no maior escândalo financeiro da história do país, que é a quebra do BRB — o caso BRB/Master. Tem autoridade para fazer isso? Isso é fake news de dois adversários políticos que, algo próprio do processo político, não me abala nem por um segundo. Vamos continuar a nossa marcha apresentando nossas propostas no debate político. São duas acusações falsas de dois adversários políticos, algo próprio do processo político.
O DF é muito dependente do Fundo Constitucional. Como dar mais independência econômica ao Distrito Federal?
Olha, hoje, infelizmente, o Fundo Constitucional do Distrito Federal está sob ameaça. Sabe o que ameaça o FCDF? A incompetência, a má gestão e a corrupção. Quando o Brasil decidiu dar recursos adicionais ao Distrito Federal, foi para o DF ser exemplo para o país. Acabou de sair o resultado do IDEB, da qualidade na educação. Sabe qual é o resultado, meu irmão, minha irmã que está nos acompanhando? Sabe qual é a posição do Distrito Federal no ranking de qualidade da educação do ensino médio no Brasil? Último lugar. No IDEB do ensino médio, nós somos o 27º lugar do Brasil. Você acha que o Brasil não olha isso e não questiona? Estamos mandando bilhões — este ano, R$ 28 bilhões do Fundo Constitucional. O que está sendo feito com esse dinheiro? Vamos lá ver: Educação em último lugar do Brasil em qualidade. Saúde com 13 bilhões de orçamento, e qual o resultado? 31 mil pessoas na fila de cirurgias, mais de um milhão de consultas e exames na fila, e faltando 5.300 médicos no Distrito Federal.
Para defender o fundo constitucional, nós temos que mudar esse governo. Temos que colocar no governo quem tenha credibilidade, quem vá colocar as políticas públicas como excelência no Brasil. Isso é defender o fundo constitucional. A continuar esse governo que está aí, não tenho dúvida: esse governo quebrou o BRB e vai acabar com o Fundo Constitucional do Distrito Federal.
Como o senhor daria autonomia económica ao Distrito Federal reduzindo a dependência do FCDF?
O Distrito Federal hoje tem três vetores principais de desenvolvimento econômico: serviços, governo e a construção civil/mercado imobiliário, que empregam diretamente 80 mil pessoas. O que estou defendendo aqui é que precisamos fincar um novo vetor de desenvolvimento no Distrito Federal relacionado à inovação e à tecnologia, aproveitando as vocações naturais que temos: tecnologia da informação, comunicação e bioeconomia. Nós temos a maior concentração de mestres, doutores e PhDs per capita do Brasil. Temos aqui a elite do funcionalismo público federal. Temos grandes universidades — só a UnB tem mais de 50 mil pessoas. Nós temos inteligência. A principal coisa para transformar o Distrito Federal em um “Planalto do Silício”, fazendo daqui um polo de inovação e tecnologia do Brasil, nós já temos: capital humano de alto nível e abundante. Falta projeto. Tem que deixar de roubar, deixar de nomear cabo eleitoral, acabar com cabide de emprego e pegar esse dinheiro para colocar na Fundação de Amparo à Pesquisa, na Secretaria de Ciência e Tecnologia, no Biotic, investindo para que os empreendedores possam dar o salto que podem dar na área de inovação e tecnologia.
O senhor vai manter o BRB sob o controle do DF?
O BRB foi envolvido nessa roubalheira. Você sabe quanto o BRB cobra para o pequeno, médio e microempreendedor pegar um financiamento para investir no seu negócio aqui? Mais de 50% de juros ao ano. Com o pequeno, o médio e o microempreendedor, o BRB cobra esse absurdo. Agora, para dar dinheiro para banqueiro bilionário quebrado, o BRB serviu. Para o pequeno, médio e microempreendedor, não serve. É isso que a gente vai mudar. O BRB vai virar o Banco do Povo do Distrito Federal. Vamos pegar o BRB e dar crédito para o pequeno, para o médio, para o microempreendedor, para o MEI. Nós temos mais de 280 mil MEIs no Distrito Federal que não conseguem ter crédito. No meu governo, os MEIs terão crédito no BRB.
Qual política de segurança o senhor vai adotar para que o DF não venha a repetir o que está acontecendo em outras capitais?
Eu lancei um programa chamado Tolerância Zero para a segurança pública. Eu já trabalhei com segurança pública, eu conheço a área. Vamos lá, por partes: aqui no Distrito Federal nós temos uma das melhores Polícias Militares do Brasil. Qual é o problema? O efetivo já foi de 17 a 18 mil homens e mulheres; hoje temos em torno de 11 mil. A população cresceu e o efetivo reduziu. Isso não faz sentido. Vamos voltar a ampliar o efetivo da Polícia Militar para que a gente possa voltar com as ROCAMs (rondas ostensivas) e também com o Cosme e Damião — aquela dupla de policiais caminhando nas quadras para garantir a sensação de segurança. Onde houver concentração de população de rua, vamos ampliar o efetivo policial para garantir a segurança, porque vemos que isso tem derivado para furtos, roubos e até assassinatos. Então, Polícia Militar na rua: ROCAM, Cosme e Damião e efetivo maior. A Polícia Civil também é a melhor do Brasil. Digo isso porque conheço as polícias do país. Vamos ampliar o efetivo da Polícia Civil, que também foi reduzido. Agora, temos que investir em duas questões centrais: planejamento e inteligência, sobretudo inteligência cibernética, porque boa parte dos crimes migrou do mundo real para o virtual, para a internet.
E quais áreas o senhor pretende enfrentar com maior ênfase?
Vamos combater o feminicídio. A cada 15 dias morre uma mulher assassinada no Distrito Federal pelo simples fato de ser mulher. O feminicídio cresceu muito. Como se enfrenta isso? Com planejamento e inteligência. O agressor nunca mata na primeira vez, é um processo. Se houver planejamento e antecipação, você consegue impedir, fortalecendo as DEAMs (Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher) e as casas de apoio. Cuidando da população em situação de rua. O governo atual criou um Centro Pop no Plano Piloto e outro em Taguatinga oferecendo comida, banho e local para passar o dia. Ninguém tira alguém da rua só dando comida e banho. Como se trata isso? Com equipe multidisciplinar: psicólogos, médicos, enfermeiros e assistentes sociais para compreender por que aquele cidadão está na rua — se é por drogas, saúde mental ou falta de moradia. É preciso entender o problema para dar o encaminhamento adequado e tentar tirar a pessoa da rua. Esse é o desafio central. E a segurança preventiva em paralelo, tem que aumentar a segurança imediata. Enquanto tentamos tirar as pessoas da rua, a população não pode pagar a conta ficando com medo de ir à farmácia à noite. Isso é tolerância zero no meu governo.
O senhor tem alguma política de valorização da mulher no DF? O senhor pensou em nomes para as secretarias?
Mesma função, mesmo salário; não importa o gênero. No meu governo, vamos valorizar ao máximo a presença das mulheres em todos os postos. Eu ainda não pensei, porque anunciar isso antes dá azar, você sabe, né? Sentar na cadeira antes da hora dá azar. Eu estou aguardando. Se Deus quiser e se o povo me der essa honra, no dia seguinte ao segundo turno eu começo a anunciar o meu secretariado.A principal questão que destaquei é o combate ao feminicídio, mas não é só isso. Uma das principais pautas em que tenho sido abordado pelas mulheres no Distrito Federal diz respeito às mães atípicas. Cresceu muito o número de mães — inclusive mães solo — com crianças especiais que precisam de atenção dedicada.
Como tratará as crianças que carecem de tratamento especial?
Nas escolas isso explodiu. Toda sala de aula hoje tem duas, três, quatro ou cinco crianças especiais sem o atendimento adequado. As escolas precisariam ter monitores e especialistas qualificados para cuidar dessas crianças. Como o governo atual está fazendo? Colocando educadores sociais voluntários, em contrato precário, ganhando R$ 80 por dia para cuidar dessas crianças sem ter a formação adequada. No meu governo, farei um concurso especial para contratar monitores especializados no cuidado com crianças especiais (o último concurso para monitor fará 10 anos no ano que vem). Toda escola terá monitor para apoiar essas crianças e ajudar os professores. Essas são as demandas das mães, assim como a volta do ensino em tempo integral. Muitas mães que empreendem e trabalham cobram a expansão do tempo integral no DF para poderem trabalhar sabendo que os filhos estão seguros na escola. Sabe qual é o percentual de alunos em horário integral no Distrito Federal hoje? Apenas 7% — um dos menores do Brasil. No meu governo, vamos chegar a no mínimo 35% das escolas em tempo integral.
A CLDF do Distrito Federal caminha para eleger uma composição mais de centro e de direita. Como pretende lidar, caso eleito?
Tenho absoluto respeito pela Câmara Legislativa. Vamos esperar o resultado das urnas para ver qual será a composição. Independentemente de ser mais ao centro, à direita ou à esquerda, a Câmara refletirá a opinião da população do Distrito Federal. Cabe ao governador reconhecer o Poder Legislativo, sentar, conversar e negociar. Tenho certeza de que os deputados eleitos vão se unir e colaborar com o governo naquilo que for de interesse da população. O médico que a população espera encontrar não é de esquerda nem de direita; ela só quer o atendimento. A pessoa que leva duas horas para chegar ao trabalho quer um ônibus expresso em faixa exclusiva para reduzir esse tempo pela metade; ela não quer saber se o ônibus é de esquerda ou de direita. O nosso desafio aqui é apresentar propostas concretas para resolver os problemas reais da população, e não ficar nessa polarização que não resolve nada.
O senhor, por diversas vezes, foi criticado na CLDF.
Permita-me discordar de você. Essa sua informação não é precisa quando diz que fui muito atacado. É o contrário: o presidente da Câmara Legislativa, deputado Wellington Luiz (MDB), me concedeu a honra de um título de Cidadão Honorário do Distrito Federal. Esse título foi aprovado na Câmara Legislativa, se não me engano, por unanimidade. Recebi esse título em uma sessão solene na Câmara por iniciativa do próprio presidente. Então, acho que essa informação não reflete a minha relação com a Câmara, pois recebi essa homenagem das mãos do presidente da Casa.
Como avalia a polarização no DF, já que o senhor não se apresenta tão à esquerda?
A eleição está só começando. Vou dizer novamente. As pesquisas indicam que mais da metade da população ainda não decidiu seu voto — em pesquisas espontâneas, cerca de 75% não citam nome nenhum. Muita coisa vai acontecer e estou muito animado. O que vejo nas ruas é que as pessoas querem mudança; não querem a continuidade deste governo que faliu a saúde e quebrou o BRB no maior escândalo de corrupção da história. As pessoas também não querem voltar ao passado; o Distrito Federal quer andar para a frente e ter um governo novo. É isso que me anima.
Ainda não temos o balanço do BRB. O que fará?
Se o BRB chegar ao dia 1º de janeiro — data da nossa posse, se Deus quiser e o povo assim desejar —, eu vou manter e resgatar o BRB. Vou acabar com a roubalheira, com os privilégios e com esses patrocínios inexplicáveis. Por que o BRB patrocina campeonato de vela em Dubai enquanto o Gama jogou ontem sem patrocínio na camisa? Vou acabar com isso e dar um choque de gestão no BRB para ele voltar a ser um banco de desenvolvimento. Nós temos que salvar o BRB. Agora, não sei se o BRB chega ao dia 1º de janeiro, porque a roubalheira foi tanta que ninguém sabe o tamanho do rombo. Governador, cadê o balanço do BRB? Por que esconde as contas do banco? Apresente as contas.